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Os
filhos dos media e os conflitos com a escola
I.
Contextualizando a situação das crianças
Olhando
a realidade e procurando perspectivá-la a partir do universo das crianças,
um primeiro bloco de factores que deve ser considerado prende-se com as
transformações demográficas e familiares ocorridas de um modo mais
saliente a partir dos finais do século XIX e, com particular aceleração,
nas décadas seguintes à segunda Guerra Mundial.
De
entre esses factores, alguns são de salientar5:
1.
O recuo da família alargada, típica das economias agrícolas e a
crescente afirmação da chamada família nuclear. A população activa
portuguesa no sector primário, por exemplo, passa, no espaço de
praticamente uma geração, de 44,4% (em 1960) para 10.1% (em 1994);
2.
Os progressos verificados na urbanização, com as vantagens e problemas a
ela ligados. Ainda no caso português, entre 1960 e 1991, isto é, em
cerca de 30 anos, a população a viver em aglomerados de 10 mil ou mais
habitantes aumentou em cerca de 60%, abarcando à volta de um terço do
total da população.
3.
Outro fenómeno relacionado com os anteriores é a redução do número
médio de pessoas por família, intimamente ligado à redução do número
de filhos. O número de famílias numerosas, entendidas aqui como tendo
mais de cinco indivíduos, que ainda em 1960 ultrapassavam as 400 mil (ou
seja, 17% do total), passou, no censo de 1991, para metade desse valor (e
com um peso de apenas 7%). Não pode esquecer-se, neste âmbito, a
incidência de factores e dimensões como os progressos verificados na
escolarização; a descompressão social verificada sobretudo a partir da
revolução de 1974; a difusão dos anticonceptivos; a facilitação dos
processos de separação e divórcio, etc. Neste contexto, importa
sublinhar que, entre outras leituras que possam fazer-se da redução
drástica da taxa de natalidade, menos filhos por casal significam, do
ponto de vista das crianças, em muitos casos, menos irmãos e, cada vez
mais, a erradicação do que essa experiência possa representar no
crescimento individual.
4.
A entrada da mulher no mercado de trabalho é outro factor relevante para
o contexto da vida doméstica, com inegáveis consequências para todos os
membros da família e, nomeadamente para as crianças. Segundo dados
recentes da OCDE, 62,2% das mulheres estavam incluídas na mão de obra
activa, representando o emprego feminino a tempo parcial não mais do que
11,6%6.
5.
Retenhamos ainda, nesta breve resenha, alguns dados relacionados com a
saúde e as condições de vida. Assim, no período que vai de 1960 a
1992, a taxa de mortalidade infantil reduz-se de 77,5 ‰ (176.5‰ em
1920) para 9.1‰, passando, no mesmo período a percentagem de partos
assistidos em estabelecimentos de saúde de 18,4% para 97.3%. Não se pode
deixar de reconhecer que isto representa um salto de grande envergadura.
6.
Relativamente à escolarização, vimos acentuar-se nas últimas décadas
a tendência para a generalização do ensino básico, apesar dos
conhecidos problemas do abandono e, sobretudo, do insucesso e, facto a
salientar, o alargamento progressivo da rede de educação pré-escolar,
que continua, no entanto, ainda longe de responder às necessidades da
população.
No
que diz respeito aos meios de comunicação e à sua presença na sociedade,
as mudanças registadas nas últimas décadas são de tal envergadura,
especialmente na sequência do fenómeno Internet, que alguns analistas não
hesitam em referir-se-lhes recorrendo ao conceito de "revolução"7.
Se
quisermos ater-nos à realidade portuguesa, teremos de anotar alguns
processos e alguns dados que nos permitem aquilatar das mudanças registadas
e em curso. Assim:
1.
O 25 de Abril veio trazer a liberdade de expressão e de imprensa e criar
condições para um maior desenvolvimento sócio-económico, aberto à
Europa e ao mundo, no quadro de uma economia de tipo capitalista.
2.
A televisão deixou de ser um monopólio do Estado, o que se concretizou
quer pela via da criação, a partir dos inícios da década de 90, de
canais hertzianos privados, de vocação generalista, quer, já antes,
pela via da difusão do acesso aos canais difundidos directamente por
satélite. Apesar de a entrada em cena dos operadores privados não ter
significado, na opinião dominante, um acréscimo de qualidade dos
conteúdos oferecidos, mas antes um agravamento do sensacionalismo e da
comercialização, a transformação do panorama geral teve pelo menos o
mérito de relançar o debate sobre o papel da TV na sociedade e, em
especial, sobre o papel e lugar do serviço público num quadro geral de
des-regulamentação e de internacionalização e concentração
crescentes. Esse debate está ainda, como sabemos, muito longe de estar
encerrado ou resolvido.
3.
Reportando-nos já não à oferta, mas à acessibilidade, no que se refere
à televisão e ao vídeo, poderemos considerar que existe hoje uma quase
saturação no que se refere à presença da TV nos lares. No que respeita
ao videogravador verifica-se que dois em cada três lares possuem pelo
menos um aparelho (ver quadro). Relativamente à TV por cabo, o número de
assinantes em 1995 pouco passava dos 50 mil, tendo entretanto sido
multiplicado por dez. Dados de 1999 da Marktest8,
indicam que três em cada dez lares portugueses acedem via cabo ou
parabólica à televisão, mais de metade dos quais com possibilidade de
recepção de um número superior a 40 canais.
|
Equipamento
dos lares portugueses em audiovisuais
|
|
Lares
com televisão
|
99.7
|
|
Lares
com televisão a cores
|
97.9
|
|
Lares
com mais de um televisor em uso
|
64.4
|
|
Lares
com mais de dois televisores
|
23.1
|
|
Lares
com pelo menos um vídeo
|
64.5
|
|
Lares
com mais de um vídeo
|
14.7
|
FONTE: Marktest/Audipanel, 1999
4.
Ao nível das telecomunicações e da informática, as alterações são
igualmente significativas, destacando-se, nomeadamente, o fenómeno da
Internet, à qual acedem já mais de um quinto (20.8%) dos portugueses
maiores de 15 anos (8.8 em finais de 1996).
|
Equipamento
em telecomunicações e telemática |
|
Acesso
a computador (% >15 anos) (a)
|
50.9
|
|
Acesso
à Internet (% >15 anos) (a)
|
20.8
|
|
Lares
com telefone da rede fixa (%) (b)
|
74.0
|
|
Telemóveis
(milhares) (b)
|
3.074
|
FONTE:
(a) Mediaplanning, Jan-Mar, 1999; (b) Instituto das Comunicações de
Portugal. (dados referentes a 1998.
É,
por conseguinte, neste 'ecossistema informativo' que as crianças de hoje
nascem e crescem. Para o quadro ser mais completo, ao nível de meios ou de
dispositivos tecnológicos com incidência na vida quotidiana dos mais
pequenos, seria preciso incluir nele os jogos vídeo de consola, os CD's e
os CR-ROM. Mas aqui, à falta de dados fiáveis disponíveis, teremos de
recorrer apenas às impressões que a experiência nos proporciona e que
concorrem para a convicção de que se trata de uma realidade significativa
na ocupação do tempo de muitas crianças, tanto do ponto de vista
quantitativo como qualitativo. Seria importante replicar no nosso país um
estudo como aquele que foi levado a cabo nos últimos anos por Livingstone
et al. (1999) e cujos resultados começam a ser conhecidos. Incidindo sobre
uma dezena de países da Europa, esses dados revelam acentuadas diferenças
quer entre os países quer segundo algumas variáveis demográficas, no
acesso doméstico, no uso pessoal e no tempo de consumo das diferentes
tecnologias e suportes. Uma faceta significativa, por exemplo, diz respeito
à comparação da acessibilidade de alguns suportes, considerando a
habitação no seu conjunto ou apenas o quarto de crianças com idades
situadas nos 9-10 anos.
Equipamentos
disponíveis em casa ou no quarto de crianças de 9-10 anos em 1997-1998 em
alguns países da Europa (em %)
|
Livros |
TV |
Vídeo |
J.Vídeo |
Internet |
| Casa |
Quarto |
Casa |
Quarto |
Casa |
Quarto |
Casa |
Quarto |
Casa |
Quarto |
| França |
100 |
95 |
99 |
25 |
92 |
8 |
58 |
26 |
4 |
1 |
| Espanha |
86 |
82 |
92 |
27 |
53 |
11 |
46 |
29 |
8 |
1 |
| Alemanha |
93 |
-- |
98 |
29 |
84 |
6 |
35 |
21 |
8 |
0 |
| Holanda |
100 |
98 |
97 |
20 |
92 |
2 |
53 |
15 |
18 |
1 |
| Suécia |
96 |
92 |
96 |
37 |
91 |
11 |
64 |
32 |
21 |
3 |
| Reino
Unido |
82 |
63 |
99 |
57 |
90 |
18 |
56 |
32 |
7 |
1 |
Fonte:
Quadro elaborado com base em dados de Livingstone et al. 1999.
Para
se compreender a relação entre as crianças e os meios de comunicação e
informação não basta, porém, ter presente o panorama mediático,
porquanto ele pouco nos diz acerca do modo como as crianças utilizam, vivem
e dão sentido às experiências que em torno dos media ocorrem.
Sobre
esta vertente, que julgo fundamental para a compreensão do campo e dos
problemas que aqui nos ocupam, seja-me permitido utilizar alguns dados
apurados pela investigação que realizei com cerca de 800 crianças do 1º
Ciclo do Ensino Básico, de diferentes meios sócio-geográficos, entre os
anos de 1993 e 1995 e que teve como preocupação central compreender os
usos e as apropriações da televisão, no quadro da vida quotidiana das
crianças (Pinto, 1995).
Desse
estudo ressaltam várias linhas de força, a saber:
1.
O acesso a equipamentos audiovisuais, informáticos e de
telecomunicações tende a ser, em média, superior nas famílias em que
existem crianças relativamente aos índices globais dos agregados
familiares9.
2.
É verdade que a TV ocupa uma parcela muito significativa do tempo diário
das crianças, cifrado em cerca de 3 horas nos dias úteis e de 4 horas
nos fins de semana e, nas idades estudadas, centrada maioritariamente em
programas de grande público (e não propriamente na programação
infantil). No entanto, esse tempo médio não pode, de modo nenhum ser
tomado pelo seu valor facial, porquanto:
a.
Uma boa parte do consumo televisivo coexiste com um leque apreciável de
outras actividades, que vão do brincar ao fazer os deveres escolares;
b.
Confrontadas com a alternativa entre ver um programa preferido na TV e
fazer um piquenique com os colegas, uma grande maioria de crianças
preferia sair;
c.
Se pudessem escolher as modalidades de ocupação dos tempos livres que
mais lhes agradam, estas crianças só numa proporção muitíssimo
reduzida optaria pela TV; seis em cada dez adoraria sair de casa para
passear, praticar desporto, visitar familiares no estrangeiro, etc.
3.
Esta pesquisa sugere que, ao contrário do que correntemente se julga - e
em convergência com outros estudos - não são necessariamente as
crianças com mais ocupações fora de casa que vêem menos televisão;
foram mesmo encontrados numerosos casos de crianças superocupadas que
eram igualmente grandes consumidoras de televisão.
4.
Dois factores que parecem pesar no volume do consumo dizem respeito não
tanto ao nível sócio-económico, à zona de residência, ao sexo ou à
idade, mas à existência de televisão no quarto das próprias crianças
e ao turno escolar. Quanto a este último aspecto, lógico quando se
enuncia, mas muito esquecido quando se reflecte e analisa este problema,
os alunos que frequentavam as aulas só de manhã ou só de tarde (e eram,
no caso da amostra em questão, a maioria) indiciavam médias horárias de
convívio com a TV claramente superiores às médias dos que iam à escola
de manhã e de tarde10.
5.
Também ao arrepio do retrato estereotipado que por vezes se faz do
quotidiano infantil, as crianças da amostra indicaram, através de um
diário redigido ao longo de uma semana, um leque verdadeiramente
diversificado de actividades que realizavam, para além de irem à escola.
A brincadeira com os colegas - mais auto-determinada - era, claramente, a
mais universal e a mais apreciada. Já quanto às actividades a que
poderíamos chamar de complemento de formação - ao nível do
desenvolvimento físico, estético, comunicacional - a frequência era
muito determinada pela oferta disponível e pelo poder económico da
família. As actividades de ajuda - seja em casa (mais frequentes e mais
centradas nas raparigas), seja fora de casa (mais frequentes entre os
rapazes) - têm uma certa expressão, embora a frequência de cada uma
registe variações importantes: 75% da amostra colaboram em alguma tarefa
em casa e 50% fora de casa. Mas a natureza da actividades (ir à erva ou
ir às compras) e o contexto em que são realizadas (ajudando os pais ou
os ajudando os vizinhos, com os irmãos ou com colegas) parecem
desempenhar um papel importante no modo como essas actividades são
conotadas positiva ou negativamente pelas próprias crianças.
6.
Neste contexto, a frequência da escola é certamente um espaço-tempo
estruturante do quotidiano infantil e, de um modo geral, referido com uma
carga positiva. No entanto, isso acontece não tanto pelas nobres razões
e objectivos que os adultos poderiam esperar, mas porque essa experiência
constitui, do lado das crianças, uma ocasião e um contexto de
interacção com os pares e com os amigos e confidentes, um terreno
propício ao jogo e à autonomia, no interior do qual as actividades
lectivas - mesmo ocupando de forma esmagadora o tempo cronológico -
surgem apontadas nos discursos quase como intervalos dos tempos que do
ponto de vista sócio-psicologicamente as preenchem e preocupam.
Encerro
este ponto - para o qual avanço dados fragmentários aqui entendidos como
sintomas e pistas de reflexão - com uma nota que me parece essencial: as
crianças, tal como o conjunto dos actores sociais, não são uma realidade
homogénea, monolítica e uniforme, que se possa catalogar deste ou daquele
modo(Buckingham, 1997). Há muitos modos de ser criança, distintos
contextos em que a experiência da pertença ao grupo social da infância se
faz, acentuadas assimetrias nas condições e nos recursos sócio-culturais,
diversos estilos e práticas educativas que configuram (e resultam de)
mundividências, normas e estilos de vida, no seio dos quais os media se
inscrevem11. Os dados apresentados sugerem
igualmente que os quadros sociais em que a vida das crianças decorre, além
de diversos, têm registado transformações muito significativas, no nosso
século e, de modo especial, nas últimas décadas. A escolarização
poderia ser um exemplo dessas transformações, mas poderíamos referir
igualmente a estrutura familiar, os contextos de socialização, a
constituição da infância como um mercado12, o reconhecimento das crianças
como sujeitos de direitos, etc.
Os dados estatísticos relativos a Portugal aqui utilizados foram colhidos,
no essencial, em Barreto (1996).
Fonte: www.marktest.pt/Informacao/Audipanel/Apresent/sld026.htm
Como observa Brannen & O’Brien (1995), em referência aos dados
do serviço nacional de estatística do Reino Unido, “famílias com crianças
de idades entre os 5 e os 15 anos têm quatro vezes mais probabilidades de
possuir um computador doméstico, do que famílias sem filhos”, o que
sugere que ”as crianças desempenham um importante papel na mudança
tecnológica”
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