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Os filhos dos media e os conflitos com a escola
Manuel
Pinto
Resumo: A vida das crianças não se compreende, hoje, se não se incorporar a realidade ambígua e complexa dos meios de comunicação e informação. De resto, o quadro sócio-cultural em que os mais novos nascem e crescem é profundamente marcado por um 'ecossistema comunicacional e informativo' tornado visível por uma panóplia de recursos e dispositivos tecnológicos distribuídos e apropriados de forma socialmente desigual. Esta conferência desenrolar-se-á em três tempos: no primeiro, procura-se aduzir elementos que contribuam para a caracterização do panorama das crianças, com especial ênfase na realidade portuguesa; num segundo tempo, tentar-se-á propor um conjunto de hipóteses e de instrumentos de análise e compreensão dessa mesma realidade; finalmente, no terceiro tempo, avançar-se-á para um conjunto de linhas estratégicas de acção, que possam ir de encontro aos problemas enunciados e analisados. Algumas dos tópicos que serão apresentados e estudados, sempre que possível com referência a pesquisas que têm sido realizadas nos últimos anos, incluem: mudanças na vida familiar e social com impacte no quotidiano das crianças; mudanças no panorama mediático e sua incidência nas características da oferta; a qualidade da televisão versus a qualidade da vida quotidiana; o poder dos media e o poder das pessoas e das instituições; as crianças como objecto e como sujeito; as crianças, os media e a escola.
Introdução
Não é tão frequente como seria desejável, nos meios educativos, assumir-se que os actores dos processos de ensino-aprendizagem são pessoas, isto é, que existem para além dos papéis que o sistema lhes atribui, sejam eles professores, pais, funcionários não docentes ou alunos. É por essa razão que me parece ser particularmente feliz e oportuna a temática escolhida para motivo desta quinta edição do Curso de Verão: "As pessoas que moram nos alunos - ser jovem hoje nas escolas portuguesas".
Poder dizer-se que a perspectivação da escola a partir da pessoa - no sentido em que, por exemplo, o personalismo de Emanuel Mounier o propôs - acarreta uma mudança de atitude, a qual, sem negar a diferenciação de estatutos e de posições, começa por postular uma igualdade radical de todos os intervenientes, em termos de dignidade fundamental.
A relação de aprendizagem, na história das sociedades humanas, tem sido focada predominantemente como um processo de transferência caracterizado pela unilateralidade e pela unidireccionalidade. Paulo Freire definiu este processo como "concepção bancária da educação" e, ao meditarmos na crueza da caracterização que este pedagogo desenvolve, poderemos ser levados a pensar que a realidade, hoje em dia, já está longe dessa imagem. E, todavia, ao vermos quão diminuto é o lugar e quão inaudível é a voz dos aprendizes, especialmente dos infantis - ou seja, etimologicamente, aqueles que não falam (in-fans) - teremos de ser mais prudentes acerca da envergadura e profundidade das sucessivas reformas dos sistemas educativos.
Haverá quem conteste que as crianças das sociedades modernas (ou pós-modernas) careçam de mais voz e atenção. Esses sustentarão que as jovens gerações adquiriram já um real poder de influência e se tornaram num foco de investimento e de atenção tais que, não raro, se converteram numa espécie de tiranos relativamente aos adultos. De acordo com este ponto de vista, os adultos teriam abdicado do seu papel de elemento referencial e determinante, para passarem a uma posição de subordinados, quando não de marionetas. É, de algum modo esta a posição que se apreende em autores como Neil Postman, no seu muito citado livro The Disappearance of Childhood, ou ainda em Marie Winn (1977) ou Finkelkraut (1988). Admitindo haver nesta visão aspectos que devem ser considerados, o facto não contradiz, a meu ver, a ideia de que se não tem em suficiente conta a voz e os pontos de vista das crianças, nos contextos educativos e nos espaços-tempos públicos para elas erigidos, quer na concepção, planeamento e execução, quer nas metodologias e processos de acção.
O movimento em prol dos direitos das crianças, que teve o seu ponto alto em 1989, aquando da aprovação pela Assembleia Geral da ONU da Convenção dos Direitos da Criança, talvez tenha consagrado, nessa magna carta, uma prática ou, pelo menos, uma sensibilidade relativamente generalizada, em especial no que se refere aos chamados direitos de protecção e aos direitos de provisão ou de bem-estar. Mas, como fazem notar diversos analistas, no que tange aos direitos de participação, ela representa mais um desejo ou um horizonte do que a consagração de uma prática efectiva.
A Convenção estipula, no seu artigo 12º que
Por sua vez, o artigo seguinte estabelece:
Estas disposições, que não são, certamente, nem simples nem pacíficas quanto ao modo e à necessária gradualidade de efectivação, configuram um campo de acção que não tem sido devidamente atendido. Basta dizer que ele tem um lugar bastante secundário e discreto no II Relatório elaborado por Portugal sobre a aplicação da Convenção dos Direitos da Criança1.
Um aspecto intimamente relacionado com o tema deste Curso, que decorre da Convenção - carta que, importa recordá-lo, tem força de lei na ordem interna dos países que a ratificaram, entre os quais Portugal se inclui - tem a ver com o conhecimento da vida das crianças, que é manifestamente insuficiente. Não me refiro apenas ao conhecimento das crianças consideradas individualmente, mas também e sobretudo da infância como categoria historicamente emergente, das crianças como actores sociais, como agentes e produtos da vida social2.
Como sempre houve crianças e sempre houve que as educar, a infância foi como que naturalizada, tomada como categoria universal e homogénea, dada como evidente por si mesma, realidade óbvia que todos conhecem e de que todos percebem. Ora, como ocorreu com algum grau de analogia com outras categorias sociais ao longo da História - os escravos, os trabalhadores, as mulheres, os estrangeiros, os loucos - toda a naturalização acarreta uma invisibilidade, uma não interrogação e, logo, um des-conhecimento. É contra essa tendência que se tem vindo a afirmar, nas duas últimas décadas, uma significativa corrente de estudos históricos e sociológicos sobre a infância, orientados quer na perspectiva do estudo dos quotidianos e das culturas das crianças (Corsaro, 1997) quer na perspectiva do estudo da infância como elemento da estrutura social e das políticas de infância (Qvortrup et al. 1994; Sgritta, 1997). Esta corrente de estudos, recentemente consagrada como secção autónoma na Associação Internacional de Sociologia, sustenta que a infância não pode ser abordada apenas por aquilo que as instituições adultas dela esperam (adultos em potência, em devir), mas também como grupo específico que produz e reproduz a vida social. Ou seja, as crianças merecem ser consideradas e estudadas não apenas pelo que hão-de ser, mas também pelo que são, através dos respectivos modos de expressão, das formas de sociabilidade, das redes de interacção, dos modos diferenciados de se apropriarem do espaço, do tempo e dos recursos, das suas visões de si mesmas e do mundo em que vivem, daquilo que pensam e esperam dos adultos e do mundo que estes edificaram.
Os pais costumam sublinhar a preocupação com o "investimento no tuturo dos filhos", mas estes, com frequência, não são tidos nem achados em matérias que lhes dizem directamente respeito. As escolas e os sistemas educativos definem perfis e metas para a educação escolar, no pressuposto de que aos alunos cabe o papel de se adaptarem aos objectivos desenhados e de corresponderem ao que deles se pre-definiu como caminho a seguir3.
Será, por conseguinte, pertinente perguntar: como sentem e o que pensam realmente as crianças e os adolescentes do mundo que lhes preparámos? Que papel podem desempenhar na configuração desse mundo? Quais as modalidades pelas quais esse papel pode ser exercido?
Enquanto não avançamos mais decididamente nas pesquisas e linhas de acção sócio-política inspiradas por este tipo de orientações4, resta-nos recorrer a alguns dados pouco sistemáticos e de valor desigual, no intuito de tentarmos dar resposta a essa interrogação estratégica e programática, que é a de conhecer quem são as pessoas que moram nos alunos.
No âmbito deste trabalho, teremos particularmente em atenção uma faceta que hoje condiciona de forma marcante os quotidianos das crianças, que é a experiência mediatizada do mundo e da vida, proporcionada pelos meios de informação e comunicação, entendidos como meio-ambiente informativo e não apenas como somatório de suportes ou de dispositivos tecnológicos.
Os organizadores deste Curso de Verão chamaram às crianças marcadas por tal experiência mediática "os filhos dos media", o que não deixa de ser uma imagem especialmente sugestiva e, digamos assim, "bem apanhada", embora, como veremos mais adiante, não isenta de ambiguidades.
Adiantarei, desde já, a minha posição fundamental sobre este assunto: teremos tanto mais filhos dos media quanto menos tivermos filhos nossos. Ou, por outras palavras: eles dependerão tanto mais da dieta mediática quanto mais reduzida ou desensabida for a dieta que diariamente lhes servirmos.
Tenho clara consciência de que esta tese não é tranquilizadora e, portanto, também não é popular. No entanto, se os problemas que enfrentamos - na família, na escola, nas comunidades locais - não forem equacionados desta perspectiva, penso que não só não os ultrapassaremos, como estaremos cada vez mais enredados neles. Proponho, assim, que procuremos compreender a presença dos media na vida quotidiana das crianças, não isoladamente, mas no quadro das relações e das práticas sociais e prestando, tanto quanto possível, atenção aos pontos de vista das próprias crianças. Recorrerei, para tal, a alguns dados de investigação própria e alheia, para, depois, reflectir mais focalizadamente em alguns aspectos e delinear algumas linhas de acção.
[1] Portugal (1998). II Relatório de Portugal sobre a Aplicação da Convenção dos Direitos da Criança. Lisboa: Alto Comissariado para as Questões da Promoção da Igualdade e da Família. Este documento encontra-se disponível na Internet (www.iec.uminho.pt/cedic) [2] Para um desenvolvimento deste ponto, veja-se Pinto, 1997. [3] Tipificando esta “ambivalência da sociedade moderna em relação à infância”, Jens Qvortrup apontava, entre outros os seguintes paradoxos: “1. Os adultos querem e gostam de crianças, mas têm-nas cada vez menos, enquanto a sociedade lhes proporciona menos tempo e espaço; 2. Os adultos acreditam que é benéfico quer paras as crianças quer para os pais passarem tempo juntos, mas vivem cada vez mais vidas separadas; 3. Os adultos gostam da espontaneidade das crianças, mas estas vêem as suas vidas ser cada vez mais organizadas; 4. Os adultos afirmam que as crianças deveriam estar em primeiro lugar, mas cada vez mais são tomadas decisões a nível económico e político sem que as mesmas sejam levadas em conta; 5. A maior parte dos adultos acredita que é melhor para as crianças que os pais assumam sobre elas maior responsabilidade, mas, do ponto de vista estrtutural, as condições que estes têm para assumir este papel deterioram-se sistematicamente; 6. Os adultos concordam que se deve proporcionar o melhor início de vida possível às crianças, mas estas pertencem a um dos grupos menos privilegiados da socidade; 7. Os adultos concordam que se deve ensinar às crianças o significado da liberdade e da democracia, mas a sociedade limita-se a oferecer preparação em termos de controlo, disciplina e administração; 8. Os adultos atribuem geralmente às escolas um papel importante na sociedade, mas não se reconhece como válida a contribuição das crianças na produção de conhecimentos; (...)” (Qvortrup, 1995) [4] Um acontecimento significativo, neste contexto, é o lançamento de um curso de mestrado em Sociologia da Infância, iniciativa conjunta do Instituto de Estudos da Criança e do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, e a abertura, em 1998, do CEDIC - Centro de Documentação e Informação sobre a Criança, acessível on-line (www.iec.uminho.pt/cedic). |