COMPORTAMENTOS DOS ADOLESCENTES DE HOJE: RESULTADOS DE ALGUNS ESTUDOS1. O futuro engolido pelo passado
Porque é que adolescentes e jovens frequentam a escola? A resposta remete para uma crença generalizada: "para que preparem o futuro". O futuro é o tempo que parece legitimar a razão de ser do sistema de ensino, ao predicar-se que ele permite a "formação dos futuros homens do amanhã" (e já agora de mulheres).
A meta da escola é o futuro, bem como a sua intencionalidade formadora: de futuros cidadãos, pais de família, profissionais, líderes, dirigentes. Nesta perspectiva, os jovens seriam seres em trânsito, sem presente, adultos potenciais em futuro. O seu presente apareceria atrelado ao futuro porque "anda-se na escola para se ser alguém no futuro" ou "para aprender coisas úteis para o futuro".
Para a instituição escolar o presente parece assim ter um valor de transitoriedade, ou seja: pouco valor. Deste modo, o presente dos jovens futuriza-se. Mas com ambivalências e contradições. E aqui surge o problema. O de uma escola ventilada por reformas modernizantes mas que permanece com roupagens retrógradas; com vícios do passado; com poucas potencialidades de se modernizar, como o requer um futuro modernizado.
Em algumas políticas educativas (vertidas ao papel - isto é, em forma de manifestos ou decretos) há intentos de modernização; fala-se da necessidade de introduzir as novas tecnologias nas escolas, de as informatizar… Mas quantos alunos do ensino secundário (para não falar do básico) se familiarizaram, na escola, com os computadores? As políticas educativas vertidas ao papel não se convertem facilmente em realidade. Porque uma coisa é falar de políticas no papel e outra do papel das políticas.
As intenções de mudança tropeçam com resistências. Quer isto dizer que a escola prepara os jovens para o futuro mas o futuro desenha-se com lacunas do passado: com escolas insuficientemente equipadas, programas controversos e desactualizados, pedagogias pouco inovadoras, professores desmotivados, alunos desinteressados, más condições de trabalho, baixas remunerações, falta de vocações, etc.
É deste modo que emerge o paradoxo do futuro engolido pelo passado, de um passado que não dá passo fácil ao futuro, nem aos projectos de vida de quem gostaria de ter um outro futuro. A escola do futuro não deve pensar o futuro como algo já feito. O futuro vai-se fazendo, preferencialmente de forma participada, envolvendo os alunos. No entanto, o que predomina na escola é uma cultura prescritiva: de planos e matérias de estudo, de normas disciplinares, de provas globais (standardizadas), de práticas pedagógicas que se inscrevem numa filosofia de "produção em série" - o que se justifica pela massificação de ensino, sujeito, cada vez mais, a economias de escala.
O modelo de ensino que as nossas sociedades continuam a adoptar parece assim deixar fugir, cada vez mais, a realidade que pretende modelar. Esse modelo de ensino assenta numa filosofia de base: a formação é entendida como uma etapa (sala de espera) a montante da inserção profissional. Formam-se jovens para a vida activa. O corolário deste princípio faz com que os estudantes sejam olhados como "inactivos" (em situação de espera). Curiosamente, as estatísticas oficiais reproduzem esta filosofia, ao excluirem-nos da população activa.
Ao estabelecer-se uma fronteira rígida entre um tempo para educar (de pretensa inactividade) e outro para trabalhar ( de actividade), os horizontes do saber (de um saber que se confina à certificação) correm riscos de se restringir à obtenção de um "canudo". São aliás conhecidos e simbolicamente expressivos, entre alguns estudantes, os rituais de queima de sebentas e de livros logo que obtêm o "canudo" ou se vêem "livres dos exames".
Depois lá vem a crença de que com melhores qualificações mais facilmente se encontra emprego. Ora o que acontece é que a escola tem vindo a funcionar como um factor de contenção artificial do desemprego, parque de estacionamento de potenciais desempregados. O efeito perverso desta contenção é bem claro: aumenta-se o nível de qualificação dos desempregados, em vez de se reduzir o nível de desemprego (a solução inversa não é, obviamente, melhor).
Contudo, a percepção que alguns jovens têm da certificação escolar é a de "cheques pré-datados", sem valor no presente e, possivelmente, sem valor no futuro. O mesmo se passa em relação a alguns conhecimentos que se adquirem na escola. Por isso um jovem me confessava, há tempos, o desânimo por não ter conseguido obter uma Licenciatura de Educação Física. Tudo por culpa da Matemática. E sentenciava: "Não vou pedir a um gajo p'a fazer um pino e dar a equação de x ao quadrado" (Culturas Juvenis, p. 223). Se a Matemática é importante para a formação de um futuro professor de Educação Física, porque é que este não é devidamente informado dessa importância?
E porque o futuro que a escola prepara para os jovens é tão incerto; e porque, por outro lado, os jovens rejeitam o papel de "inactivos" que o sistema lhes confere ("está calado!"), muitos deles acabam por investir no presente - presente de um tempo buliçoso que contrasta com a rotina dos tempos escolares. Essa rotina, vício antigo do sistema, é impeditiva de uma pedagogia da autonomia, para a qual, saber ensinar não é transferir conhecimento mas criar possibilidades para a sua própria produção ou construção . Com a participação dos alunos, evidentemente.
A educação escolar é uma sala de espera, em muitos casos aborrecida. Espera inactiva de um futuro incerto e longínquo. Longa espera, dado o alongamento das trajectórias escolares. Por isso os jovens criam mundos e modos de vida alternativos que lhes permitam viver o presente, protagonizando-o, experimentando-o. De preferência com os amigos, com quem vão aprendendo as coisas boas e más da vida. É através destes relacionamentos informais que os jovens aprendem a sobreviver na escola, ou fora dela: nos cafés, jardins, arcadas, esquinas de rua - pátrias de exílio, ninhos de socialização que, em alguns casos, compensam a falta de acompanhamento de pais e professores. Em todos os Inquéritos realizados em Portugal sobre a relação dos jovens com a escola, uma coisa é consensual: os jovens gostam da escola sobretudo pela convialidade que ela proporciona com os amigos. Os espaços da escola onde os estudantes se sentem melhor são o recreio/pátio, a sala de convívio/cantina e o ginásio/campo de jogos. Em contrapartida, onde se sentem pior é nas salas de aula. Aliás, muitas das ousadias praticadas pelos estudantes parecem derivar de uma ética convivialista cujo epicentro é a escola. Num Inquérito realizado na área da Grande Lisboa (Jovens de Hoje e de Aqui,1993) constatámos que é essa ética que os leva a "faltar às aulas", "pregar partidas aos professores", "fumar charros" e "apanhar bebedeiras".
[1]Paulo Freire, Pedagogia da Autonomia. Saberes Necessários à Prática Educativa, Rio de Janeiro, Editora Paz da Terra, 1997, p. 52. |