A ESCOLA DE ONTEM FACE AOS ADOLESCENTES DE HOJE: COMO PODERÁ SER AMANHÃ?

 

A primeira reflexão que o tema me sugeriu foi de carácter auto-referencial... Lembrei-me dos meus tempos de adolescente, do meu liceu e das esperanças e alegrias que nele vivi porque chegara o 25 de Abril! De repente tudo mudou: acabou-se a bata lilás, despacharam-se os soquettes brancos, pintaram-se os olhos e os lábios; os rapazes puderam passar pelos portões, não sendo mais preciso encontrarmo-nos no relvado fronteiro, junto à estátua aos Heróis do Ultramar (alguns, poucos, vieram mesmo estudar para lá); algumas professoras foram arrumadas, em grande, na prateleira (claro que esta expressão é um eufemismo), mas a nossa reitora ficou e nós, as jovens do meu liceu, acreditámos que tal teria acontecido por causa do nosso pedido nesse sentido; logo a seguir começaram as R.G.A. (reuniões gerais de alunos), as greves (as preferidas eram as greves de zelo, em que literalmente acampávamos no ginásio, discutindo com toda a força e energia da nossa década e meia de vida (aproximadamente) o futuro da nossa escola e do país, o nosso futuro), activou-se a associação de alunos, promoviam-se reuniões inter- -escolas e quando surgia a oportunidade de nos juntarmos aos universitários nos jardins da Associação (AAC), agora sem pides nem polícia, acreditávamos que o futuro era já ali, que o agarrávamos com as duas mãos; entretanto, continuavam as aulas, continuávamos, sempre que podíamos a "baldar-nos" às ditas, tal como continuávamos aborrecer a menina Alice e a menina Rute; continuavam os "pontos" e avaliações e lá estudávamos qualquer coisa no tempo que nos sobrava, porque era importante passar de ano, se possível com notas razoáveis.

 

Que sentido faz para mim essa frase (o título desta conferência) aplicada a esse tempo e essas experiências...

 

Mas porque será que, numa segunda reflexão, agora mais centrada na necessidade de encontrar temas para convosco partilhar e reflectir, me dei conta que a encarava como a expressão de dificuldades, problemas, inadequação, mesmo de algum pessimismo e falta de soluções perante a realidade que é hoje a escola? Provavelmente, uma primeira razão é porque hoje, mais ou menos vinte cinco anos volvidos sobre a minha passagem por essa escola, sou uma ex-adolescente, ou seja, pertenço à classe dos adultos... Provavelmente, porque o tempo passou, para todos, mesmo para os não nascidos à data... Provavelmente, é então importante não abdicar de uma postura de visões múltiplas e, como tal, considerar dialogicamente que a frase nos remete, simultaneamente, para a esperança e para a desesperança, para coisas boas e para coisas más; remete-nos, de certeza, tal como há vinte cinco anos, para a inevitabilidade da mudança... e para as questões, angústias, potencialidades que esta gera e sempre a acompanham.

 

Neste contexto, parece-me ser relevante dar atenção ao testemunho dos jovens que povoam hoje as nossas escolas, uma vez que a discussão do nosso testemunho, o dos adultos que nelas vivem ou por elas se interessam será, certamente, de viva voz, uma das implicações deste curso. Apesar de ter conhecimento que esse aspecto se constituiu como objecto específico de algumas conferências que antecederam esta comunicação, não quereria deixar de referir alguns dados resultantes de um estudo efectuado em quatro cidades europeias em 1997, no âmbito do IREFREA (Institut de Recherche Européenne sur les Facteurs de Risque chez l'Enfant et l'Adolescent), nas quais se incluía Coimbra. Nesse estudo, do qual foi a coordenadora responsável em Portugal, numa amostra de 347 sujeitos, recolhida em 7 escolas da cidade, com uma idade média de 12,32 anos, emparelhada na variável sexo e cujos pais foram também inquiridos, verificou-se que: 51,42% dos jovens afirmam gostar do que estudam, enquanto 46,96% dizem gostar "mais ou menos" e 1, 89% indicam não gostar do que estudam. 88,64% pensam que os seus estudos lhes servirão para fazer carreira e encontrar um bom trabalho no futuro, enquanto 10,73% acham que servirão para encontrar uma forma de ganhar a vida. 56,15% dos jovens inquiridos diz que se sente "bem" na sua escola, 18, 61% "relativamente bem" e 21,77%, "muito bem", enquanto 3,47% dizem sentir-se "mal" ou "muito mal" na escola. De notar que os pais, dos quais 40,63% têm como habilitações literárias o ensino básico ou menos, desejam, na sua grande maioria, que os filhos venham a concluir uma licenciatura ou mais (licenciatura, 64,26%; pós-graduação, 19,02%, num total de 83,28%). Os dados das outras cidades europeias (Madrid, Lyon e Modena) apresentaram tendências semelhantes (IREFREA, 1997).

 

Estes dados levam-nos a acreditar que, à entrada na adolescência, os jovens acreditam no valor da escola (são pouquíssimos os que dizem que não serve para nada), gostam de a frequentar e até nem desgostam do que estudam, coerentemente com as expectativas dos pais que desejam que os filhos possam vir a obter qualificações académicas bem superiores às suas (em média, claro). O que acontece, então, que interfere com ou transforma estas percepções, fazendo com que a escola surja por vezes aos nossos olhos, e também aos de muitos alunos, como um espaço inadequado às expectativas, desejos e objectivos?

 

Voltando às minhas memórias de adolescente na escola, também recordo o quanto foi difícil vir para uma cidade, sair de um colégio e encontrar uma escola muito, muito maior, onde me sentia um número, somente "mais uma" que, ainda por cima, não conhecia quase nada, desde os corredores, aos laboratórios e às pessoas... Lembro-me como me senti, quando descobri que "caíra" na turma das filhas dos "Srs. Professores" da Universidade. Recordo, ainda, como inicialmente foi importante a minha professora de Física que percebeu e aceitou algumas das minhas diferenças e me reassegurou que ali também havia espaço para mim e que eu seria capaz de "dar conta do recado"; contudo, para tal foram precisas algumas, muitas, "visitas guiadas"...

 

Não vos quero maçar com mais histórias da minha história, até porque não é suposto transformar este nosso encontro numa catarse autobiográfica. Até porque, como se vê e apesar de tudo, a escola de ontem não é exactamente a escola de hoje. Até porque, os jovens de hoje não são exactamente os jovens de ontem, de há vinte e cinco anos... São jovens, mas... Hoje, os anos que passam na escola alargam-se cada vez mais - e não me refiro, somente, à escolaridade obrigatória, mas fundamentalmente à maior facilidade de acesso ao ensino que gera nos jovens uma maior competição (nalguns casos redutora da esperável solidariedade entre iguais), diferentes expectativas e objectivos de continuidade de estudos, tantas vezes delimitados pelas dificuldades de encontrar um primeiro emprego; hoje, a pressão consumista faz dos jovens alvos preferenciais, transmitindo contornos bem definidos ao que nos habituámos a considerar os seus gostos específicos - por exemplo, a "noite" deixou de começar à meia-noite para se iniciar às três da madrugada e em consonância o consumo de bebida é estimulado, tal como o marketing agressivo dos concertos ou do futebol anula, em muito, a possibilidade de escolha ou opção de participação; hoje, o incremento de actividades e o bombardeamento com informação, via mass-media ou internet, cria novas necessidades e centros de interesse; hoje os jovens não escondem tanto a sua sexualidade emergente; hoje, as famílias sujeitas a novos e pressionantes factores empurram mais precocemente os mais novos para a escola e para si próprios, por vezes funcionando em casa de modo oposto. A lista das diferenças poderia ser prolongada quase sem cessar... Tudo isto provocou um reforço da cultura e mitologia adolescenciais, apresentadas como contra-ponto às do adulto, o que cada vez mais conduz os jovens à centração nos pares, como quem está "num mundo aparte". De todo o modo, transportando esse mundo novo, continuam a ser jovens que frequentam a escola, naturalmente de modo diferente.

 

O meu objectivo ao recorrer às minhas memórias de ontem, foi chamar a atenção para o que é um dado do nosso conhecimento, para uma daquelas coisas que, como diria Bateson (1987), todas as crianças sabem, todos nós sabemos, mas muitas vezes esquecemos ou não prestamos atenção suficiente como estudiosos ou cientistas: hoje, tal como ontem, as crianças e jovens que habitam as escolas vão, progressivamente, ganhando o estatuto / papel / posição de alunos, de modo a que ele se transforma na sua identidade número um, sendo em função disso que com eles nos relacionamos prioritariamente.

 

Será também quase certo que todos nós guardamos memórias da escola que se cruzam em pontos comuns, no que ao estatuto de ser aluno se refere, divergindo no que a cada um de nós diz respeito. Quer dizer, quando elegemos a escola como contexto é difícil não ver os alunos simplesmente como alunos - tal como acontece, afinal, com os outros, com os professores, por exemplo. Mas, como vimos, tal como nós, para além do seu papel de alunos, esses jovens jogam muitos outros papéis. Utilizando a terminologia sistémica, modelo que perfilhamos, diríamos que eles (como nós) são partes de muitos outros sistemas de que não os podemos desligar - família, grupo de amigos, claque de futebol, habitantes de um bairro, membros de uma qualquer associação ecologista... E aqui surge a primeira nota que queremos deixar: se o indivíduo não pode ser desligado do seu contexto, os contextos não podem ser desligados uns dos outros.

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