2. Fazer a revolução ou deixar que ela aconteça? O desafio, para uma audiência qualificada que estará no cerne desta revolução o mundo da educação , passa por, percebendo a dinâmica da Sociedade de Informação, contribuir para traçar objectivos, estabelecer modelos e estimular participações. Numa palavra, ser pró-activo, em vez de ficar a assistir, de longe, porque "o mundo caminha mesmo sem nós, dependendo de nós que caminhe connosco". Importa, pois, traçar objectivos, para que o desenvolvimento da Sociedade de Informação seja condicionado por critérios de interesse público e sirva, em primeiro lugar, a coesão social ao nível local, nacional e europeu. As prioridades definidas neste momento, nomeadamente no domínio da Educação, serão decisivas para o sucesso, ou insucesso, da afirmação da SI sem rupturas e perturbações graves. Para tal, é necessário estabelecer modelos concretos, exemplos visíveis, para que se descodifique o sentido pleno do que é a Sociedade de Informação e do seu impacte na vida das pessoas e das comunidades, como a Escola, colocando em relevo as potencialidades e as limitações destas novas realidades. Finalmente, é indispensável estimular participações, para que, desde o seu início, a dinâmica da Sociedade de Informação seja discutida e participada por todos, nomeadamente por quem detém responsabilidades educativas. Neste contexto, os desafios associados à revolução que a Sociedade de Informação provocará, nos planos educativo, social e cultural, podem ser definidos em três linhas principais: A Sociedade de Informação, se construída tendo como prioridade a dimensão humana, não pode gerar novas exclusões sociais ou acentuar as já existentes. A Escola pode e deve ser o principal espaço de afirmação deste paradigma. A Sociedade de Informação não deve permitir a criação, ou o reforço, de predominâncias culturais, ideológicas ou económicas de alguns protagonistas, defendendo, ao invés, a diversidade e a interdependência entre as comunidades. Como espaço de liberdade, deverá estimular o diálogo na diversidade, a partilha de recursos culturais e a afirmação de cada pessoa, povo ou cultura. Os primeiros passos da Sociedade de Informação, ainda em fase de afirmação, devem acentuar o carácter democrático e solidário da sua essência, sendo útil que os projectos mais relevantes se afirmem de utilidade evidente e universal, bem como de fácil acesso. Vamos, pois, mergulhar nestas três linhas de reflexão. 3. O combate à info-exclusão Uma das maiores interrogações que estão no horizonte próximo, no quadro da Sociedade de Informação, é a ameaça da info-exclusão. Parece evidente que o curso da história caminha para um ponto em que não saber operar com tecnologias de informação e comunicação será equivalente ao analfabetismo funcional. Quem aí se deixar fixar terá uma enorme desvantagem competitiva ao nível do emprego e da cidadania. Ora, esta preocupação não é, infelizmente, uma ficção. Os níveis de literacia tecnológica básica são, em Portugal como em muitos outros países, baixíssimos. Assim, sendo a nova Sociedade marcada pela informação, comunicação e conhecimento, há o risco de um número significativo de pessoas não ter a "carta de condução" para as auto-estradas da informação e, por isso, ficar à margem. Por isso, a Sociedade de Informação, se construída tendo como prioridade a dimensão humana, não pode gerar novas exclusões sociais. Pelo contrário, deve servir para anular ou minorar algumas das existentes. Assim, a idade, o sexo ou o nível sócio-económico não devem ser limites ou obstáculos no acesso e no usufruto da Sociedade de Informação, pelo que, desde a sua geração, devem estar previstos mecanismos que contrariem esse perigo real. Esses mecanismos devem ter como espaços de intervenção prioritários: a Escola e a família, onde se formam adequadamente os cidadãos do futuro; as empresas e centros de formação, onde se requalificam os cidadãos do presente. Assim, as escolas devem desde já, sem perda de tempo, incluir no seu seio as tecnologias de informação e comunicação, nomeadamente o multimédia interactivo, quer através de CD-ROM quer através da Internet. Os programas anunciados pelo Governo português, nomeadamente "Internet nas Escolas" e "Nónio XXI", são primeiros passos que não esgotam tudo o que há para fazer. O objectivo ambicioso de um computador multimédia por sala de aula, ligado a uma rede telemática, no ano 2000 é uma meta que devemos alcançar. Na estruturação do Livro Verde para a Sociedade de Informação, os objectivos educativos, muito marcados pela exigência da formação ao longo da vida, são resumidos em quatro princípios: aprender a conhecer, isto é, adquirir os instrumentos da compreensão, combinando uma cultura geral, suficientemente vasta, com a possibilidade de trabalhar em profundidade um pequeno número de matérias, o que também significa aprender a aprender, para beneficiar das oportunidades oferecidas pela educação ao longo da vida; aprender a fazer, para poder agir sobre o meio envolvente, a fim de adquirir não somente uma qualificação profissional mas também competências que tornem a pessoa apta a enfrentar as mais diversas situações e a trabalhar em equipa; aprender a viver em comum, a fim de participar e cooperar com os outros, no respeito dos valores do pluralismo, da compreensão mútua e da paz; aprender a ser, via essencial que integra as três precedentes e que permite a cada um desenvolver melhor a sua personalidade, ganhar capacidade de autonomia, discernimento e responsabilidade. Para que esta batalha possa ser ganha, é essencial a participação empenhada dos professores e dos pais, desde logo requalificando-se, quando necessário, para poderem integrar com eficácia estes recursos no processo educativo. É que a revolução da Sociedade de Informação não dispensa o papel do pai, mãe ou professor. Ao invés, nunca foi tão importante! Perante uma imensa oferta de fontes de informação, de caminhos possíveis e de ritmos personalizados de aprendizagem, é essencial o papel do educador. Porventura, já não precisa de ser depósito de informação, pois dispõe de recursos poderosos para aceder a toda a informação necessária. Também já não haverá espaço para atitudes de uma arrogante superioridade de quem tudo pode e sabe. No entanto, a sabedoria que enquadra quem navega por novos mundos do conhecimento, a experiência que contribui para formar um apurado espírito crítico e discernido no formando e o exemplo de aprender a aprender ao longo da vida são alguns dos contributos que pertencem em exclusivo aos educadores. Finalmente, é evidente que a informação dos bits está muito longe de transmitir plena e eficazmente afectos e valores, motivações e modelos de comportamentos, com vista à estruturação saudável de uma personalidade. Só uma navegação conjunta pais, professores, crianças e adolescentes pelos oceanos da informação, da comunicação, do conhecimento e, sobretudo, da vida pode alcançar um são equilíbrio neste presente conturbado. Mas é evidente que, para que esta navegação partilhada aconteça, cada um de nós não pode deixar-se deslizar para o universo do info-analfabetismo. É necessário um esforço pessoal e uma determinação firme de aprender os rudimentos do ciberespaço. Entre muitas acções possíveis que a sociedade civil, através de associações e de sindicatos, ou o Estado, através das inúmeras estruturas ao seu alcance, devem promover, parece urgente a criação de Programas universais e gratuitos de literacia tecnológica de aproximação à Sociedade de Informação, tendo em vista a actualização pessoal e a reconversão profissional. Estes programas deverão ser destinados sobretudo aos adultos, faixa etária potencialmente excluída da Sociedade de Informação, em particular aos que detêm funções profissionais cruciais, como os educadores, bem como àqueles que se encontram em situação mais vulnerável, como os desempregados. Estes primeiros passos permitiriam: 1. Formar e qualificar para a Sociedade de Informação, através do contacto e da aprendizagem experimentada das novas Tecnologias de Informação e Comunicação e a sua aplicação ao trabalho, à formação e ao lazer. 2. Sensibilizar para as mutações em curso, decorrentes da Sociedade de Informação, que exigirão uma atitude diferente perante o trabalho e o emprego, nomeadamente flexibilidade, capacidade de adaptação à mudança e formação permanente ao longo da vida. 3. Testar e consolidar um modelo de formação inovador sobre a Sociedade de Informação e de introdução às Tecnologias de Informação e Comunicação, que se possa universalizar, com as necessárias adaptações, a toda a população. Parece, no entanto, evidente que esta etapa é só a primeira. Para educadores exigentes e capazes de responder aos desafios do futuro, uma outra etapa se desenha de imediato: a plena integração dos recursos multimédia interactivos no processo educativo. Descobrir a fórmula certa de explorar os imensos recursos potencialmente disponíveis é um caminho que está por desbravar. Mas é bom não esquecer que os ventos de exclusão do ciberespaço atingirão sobretudo os que não têm recursos financeiros para aceder a este mundo, que ainda é excessivamente caro. A Sociedade de Informação não pode cavar mais o fosso entre ricos e pobres, entre os que têm meios financeiros para aceder às TIC e os que não têm; atendendo a que a Informação é a riqueza maior do século XXI, daí resultariam ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez mais pobres. Tal não pode acontecer. Da mesma forma que defendemos o acesso universal à educação e à saúde, propomos ainda o acesso gratuito ou muito facilitado às TIC em espaços públicos devidamente equipados, como escolas, bibliotecas, associações culturais, ONG e sindicatos, sustentado na criação de um parque de equipamentos informáticos públicos, numa redução significativa das tarifas de telecomunicações e do preço do software para utilização na educação, na cultura e na solidariedade. As experiências desenvolvidas nesse sentido em alguns países europeus devem ser inspiradoras, para que se universalize a todo o espaço comunitário essa prática. A justiça social do futuro próximo também passa por aqui. |