| Os
desafios da Sociedade de Informação Rui Marques A revolução induzida pelo desenvolvimento da Sociedade de Informação é, neste final de século, um dado inquestionável. Conhecer as suas causas e tentar perceber algumas das suas consequências é uma atitude determinante, num momento em que o sentimento de dúvida e perplexidade nos incomoda. 1. A identidade de uma revolução Discretamente, quase sem se perceber, foram-se desenvolvendo, nos anos 70 e 80, as bases de uma revolução que só tem paralelo nas maiores mutações das sociedades humanas. O mundo que estamos a construir segundo esta matriz espantar-nos-á. Porventura, para o bem e para o mal. Como todas as grandes revoluções da Humanidade, também esta arrasta esperanças e receios, mas sobretudo incertezas. Nenhum de nós pode, com segurança, prever o que vai ser a Sociedade de Informação em toda a sua plenitude. Os aspectos que se salientam não são mais do que a ponta do imenso icebergue que ainda não vemos, mas que importa começar a perscrutar. Mas de que falamos quando falamos de Sociedade de Informação? Comecemos pelas raízes. Esta realidade, que tem vindo a crescer ao longo dos últimos trinta anos, com particular incidência e aceleração nesta década de noventa, baseia-se na conjugação de alguns dados objectivos que originaram novas tendências: O primeiro passo, porventura decisivo, deu-se com a transformação da informática e das telecomunicações em protagonistas decisivos dos tempos modernos. A sua dessacralização e generalização, estimuladas pelo conceito do "amigável" e pela redução imparável do preço e da dimensão, a que se somaram os recursos multimédia e a crescente capacidade de armazenar e gerir dados, transformaram radicalmente o cenário da informação e da comunicação. Com essas mutações, aconteceu a natural e desejável expansão da informática, fazendo-a sair das empresas e dos gabinetes de investigação e transportando-a para todos os campos de intervenção, nomeadamente para os lares, para a escola, para a cultura e para a arte. Ao mesmo tempo, as telecomunicações avançavam a passo largo, conquistando permanentemente novos horizontes e convergindo para uma integração num triângulo dourado: a informática, as telecomunicações e os conteúdos. Curiosamente, tudo isto é possível graças à conjugação de dois símbolos: 0 e 1. Com efeito, com o desenvolvimento da digitalização, isto é, nas palavras de Negroponte, "a transformação de átomos em bits", criou-se um admirável mundo novo: o mundo digital. Em termos muito simples, a digitalização permite representar informação (texto, imagens ou som) sob a forma de conjuntos de dígitos (0 e 1). Desta forma, é possível, por exemplo, um livro passar a outro "estado de matéria", em longas combinações de 0 e 1. Essa informação pode repousar na memória de um computador, em suportes ópticos (como um CD) ou, mais importante ainda, circular por redes terrestres ou por circuitos de satélites, perdendo assim algumas das limitações da matéria. Este dado acompanha um dos mais significativos traços desta revolução: a passagem do domínio do tangível ao império do intangível. Esta realidade da digitalização tem, obviamente, uma importância crucial na história da Humanidade, que condicionou decisivamente a aparição da Sociedade de Informação. No entanto, a sua potenciação a valores nunca sonhados aconteceu com o desenvolvimento das redes de computadores e com a circulação, no seu seio, de milhões de bits, em múltiplos sentidos. Assim, o computador pessoal, com capacidade de se conectar através de uma simples rede telefónica a outros computadores, formando redes cada vez mais complexas, abriu a porta à interactividade, sem limites geográficos ou culturais, deixando o espaço de ser a variável decisiva, cedendo o lugar ao tempo como factor estratégico. Aqui assenta uma das mais bem sucedidas marcas da Sociedade de Informação: a Internet. É evidente que alguns dos meios convencionais de comunicação social, como a rádio ou a televisão, já eram transmitidos à distância, ainda que usando sistemas analógicos. No entanto, eram baseados essencialmente numa lógica unidireccional, cultivando, naturalmente, um modelo de cidadão passivo e obediente, que é quase só espectador. Com o advento da interactividade emerge um novo modelo de comunicação, com cidadãos activos e intervenientes, que interagem directamente com a fonte de informação e que são eles próprios fontes de informação. A soma da dimensão multimédia com a capacidade de interactividade, num ambiente de explosão de fontes de informação, ligadas em rede, conduziu a uma outra condicionante importante neste novo mundo: o pensamento em rede. Toda a nossa educação e estruturação da aprendizagem passava pela lógica linear e determinista em que, numa visão simples, tudo deve começar no princípio, ter um meio e acabar num fim. Com o advento da Sociedade de Informação, afirma-se um outro modelo de pensamento que segue o caminho de uma malha, determinada não pela fonte da informação mas pelo utilizador que com ela interage. Cresce assim um pensamento por possibilidades, que conduz, naturalmente, a um reforço da diversidade e da individualização, ao invés da uniformidade e da massificação, traços maiores dos tempos pré-Sociedade de Informação. Estes traços constitutivos da identidade da Sociedade de Informação condicionam outras tendências. Desde logo, na Economia, a afirmação dos novos factores de produção, que já não são o capital ou as matérias-primas, mas sim a posse da informação e a operacionalização do conhecimento, tendo em vista a inovação. No consumo, ascende igualmente a diversificação e o reforço do valor da qualidade na óptica do consumidor, em detrimento da quantidade uniformizada, dirigida a partir da produção. Passámos definitivamente para um tempo em que a procura é factor motriz, afirmando assim o mercado como paradigma da economia. Igualmente ao nível político e social, esta revolução traz um terreno fértil para mudanças. É provável que decresça o papel do Estado-Nação com a afirmação de outros modelos, sub e supranacionais, de comunidades ligadas por um vínculo comum, distinto da nacionalidade. Essa mutação pode arrastar consigo a queda de culturas hegemónicas e o crescimento da interculturalidade. É evidente que devemos, neste momento, recuperar o conceito de incerteza que abre esta reflexão. Se alguma coisa é hoje certa é a incerteza. A maioria das tendências anunciadas não passa disso mesmo. Novos golpes da história, determinados por aquisições científicas ou tecnológicas, pelo acaso, ou pela paradoxal essência humana, podem trazer (trarão seguramente ) novos dados que actualizarão as tendências descritas. Mas, por conforto de análise, admitamos como base de trabalho as tendências enunciadas. Que eco têm em nós? Que medos e esperanças despertam? Que respostas motivam? |