| REORDENAR O CURRÍCULO
DO ENSINO BÁSICO FACE À SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO Manuel Rangel INTRODUÇÃO É já um lugar-comum dizer que vivemos numa sociedade em profunda e acelerada transformação. Não me alongarei, ao longo da minha intervenção, na análise dos problemas e mudanças que têm ocorrido na nossa sociedade, nem serei exaustivo na caracterização daquilo a que se vem chamando a "Sociedade da Informação". Outros o têm feito como já aconteceu aqui com elevada competência. A esse respeito, limitar-me-ei com base no muito que tem sido dito e escrito sobre o assunto a enumerar alguns aspectos que julgo relevantes para reflectir sobre os currículos escolares. Procurarei, em seguida e aí de forma mais detalhada e exaustiva , analisar o que suponho serem os grandes desafios que se colocam aos currículos do Ensino Básico, fruto das transformações a que temos assistido nas últimas décadas. Colocarei esses desafios em termos de dilemas, que os currículos enfrentam, por me parecer ser essa a forma mais adequada de pensar, face à realidade em que nos encontramos. Com efeito, numa altura em que os quadros de referência se tornaram todos tão difusos, tudo se nos apresenta precário e relativo. Oscilamos entre a esperança (por vezes desmedida) num futuro repleto de soluções e o desânimo e alarmismo perante um mundo que nos parece ruir e caminhar a passos largos para a autodestruição. A Escola é, hoje, alvo de todos os pedidos, mas também de todas as críticas. Nunca, porventura, ela foi tão mitificada nem tão criticada como nos nossos dias. Pede-se-lhe que acompanhe, seja pioneira e até motor da mudança, mas, simultaneamente, inquietamo-nos e exigimos-lhe que assegure o que do passado nos parece dar segurança para o presente. Habituada a viver da transmissão do que era seguro e estável na nossa herança cultural, a Escola tem vacilado. Vacila perante as nossas críticas e interrogações, perante as tensões internas, perante a competição e os desafios que lhe chegam do exterior. Espelho e palco de tantas dúvidas, inseguranças e hesitações, parece inevitável que, nos tempos mais próximos, a Escola tenha que aprender a viver e a conviver, tal como nós próprios, com essas contradições. Os currículos escolares não poderão escapar a essa condição. Como componente fundamental do sistema escolar, o currículo é atravessado por todas essas tensões. Perante a incerteza e instabilidade que caracterizam o presente, as escolhas tornam-se difíceis, quando não mesmo paradoxais, e vemo-nos obrigados a integrar aquilo que muitas vezes nos surge como inconciliável. O QUE CARACTERIZA AS SOCIEDADES ACTUAIS? Vejamos, então, quais os traços que melhor caracterizam o mundo em que vivemos. Quais as mudanças que tornaram a sociedade de hoje tão diferente de há umas décadas atrás e tão imprevisível quanto ao futuro? Como comecei por dizer, não terei a pretensão de analisar os problemas ou, sequer, de ser exaustivo. Enumerarei, apenas, alguns dos aspectos que caracterizam a sociedade actual, e que me parecem ter maiores implicações em termos dos currículos:
globalização da economia e
internacionalização dos mercados
alteração na distribuição dos sectores
produtivos: intensa terciarização
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