| REORDENAR O CURRÍCULO
ESCOLAR TENDO EM VISTA A SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO Francesc Pedró Introdução Estaremos, de facto, no limiar duma mudança real do nosso modelo de sociedade? Ou tratar-se-á, de novo, duma pretensa revolução, sem qualquer efeito nas práticas escolares? Nunca será de mais recordar, aqui, até que ponto parecia claro, no início dos anos setenta, que as então denominadas "máquinas de ensinar" iriam mudar, completamente, a face do ensino, em todo o mundo, tornando praticamente desnecessária a presença de professores. Já lá vão trinta anos e, em muitos sentidos talvez demasiados , as escolas de hoje continuam a ser, essencialmente, iguais às que conhecemos na nossa infância. As máquinas de ensinar não mudaram o universo escolar dos nossos filhos, como temíamos. Mas, em relação a muitos deles, mudaram, total ou parcialmente, a forma como jogam e se divertem, e alteraram o seu universo simbólico; e não há dúvida que isso contribuiu, também, para o seu afastamento da cultura escolar e para que sejam cada vez maiores as distâncias entre esta cultura e a cultura familiar, a dos meios de comunicação e a do correspondente peer-group. As expectativas dos jovens e as suas exigências em relação aos produtos audiovisuais e multimédia são cada vez maiores: são verdadeiros connaisseurs que dificilmente se contentam com os produtos escolares. Há quinze anos atrás, dispor dum computador no próprio escritório era um privilégio reservado a programadores; hoje, é difícil pensar numa profissão qualificada em que, dum ou doutro modo, não intervenha a telemática. Mas o que deve preocupar-nos, agora, é saber se a sociedade da informação irá mudar o universo escolar dos nossos netos. Desta vez creio que sim, e espero e desejo que a mudança seja para todos e não só para alguns. Deve mudar e mudará com certeza , pela simples razão de que o mundo exterior à escola já o fez: ser cidadão da Europa, hoje em dia, e exercer plenamente os próprios direitos e deveres exige, cada vez mais, a capacidade de saber movimentar-se num ambiente de alta tecnologia. Se assim é, há pois que mudar o conceito de escolaridade obrigatória: se a nossa sociedade é, ou queremos que seja, a sociedade da informação, então o período de escolaridade obrigatória deve garantir a cada jovem a sua correcta inserção neste novo modelo de sociedade. Por outras palavras, um adequado processo de socialização deverá incluir, necessariamente, aqueles elementos que garantam a cada jovem a possibilidade de ser um membro de pleno direito da sociedade da informação. Significado da educação obrigatória Em princípio, o período de escolarização obrigatória é suposto equivaler ao período óptimo de tempo que, em cada país, se considera apropriado para conseguir um adequado processo de socialização de cada jovem. Tradicionalmente, este processo de socialização ou de transição para a inserção no mundo adulto baseava-se na convicção de que a passagem pela instituição escolar era sinónimo e garantia de:
____________________ (1) Tive ocasião de examinar esta ideia, sob uma óptica comparativa, no estudo intitulado La respuesta de los sistemas educativos al reto del desempleo juvenil (Madrid: Ministério da Educação e Ciência, 1992). |