QUAIS OS SABERES ESSENCIAIS QUE OS EMPRESÁRIOS
VALORIZAM NO ENSINO E NA FORMAÇÃO

José Matias Alves

"À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo"
Fernando Pessoa/Álvaro de Campos,
Ode Triunfal

PREÂMBULO

     Para procurar responder à interrogação que define o tema desta conferência – quais são os saberes essenciais que os empresários valorizam no ensino e na formação inicial – o texto organizar-se-á em três partes.

     Na primeira, de natureza introdutória, far-se-á uma caracterização breve dos contextos donde emergem os pedidos de saberes e competências: o contexto familiar, com a sua ordem dissipativa e a crise da socialização primária; o contexto educativo formal, com a sua ordem arcaizante e a crise das funções tradicionais de instrução, socialização secundária, estimulação e selecção; o contexto social com a sua ordem centrífuga e a crise da identidade e coesão social, o contexto económico, com a sua ordem desordenada pelos imperativos da competitividade e a crise da identidade profissional e da securização.

     Realizada esta visita breve aos contextos que condicionam a definição e a valorização dos saberes essenciais, a segunda parte procurará caracterizar a realidade empresarial portuguesa como forma de compreender o que é valorizado nas práticas empresariais. A revisão das capacidades e competências valorizadas pelos empregadores e a apresentação de diversas tipologias permitir-nos-á concluir que a valorização dos saberes depende do perfil dos empresários, da tipologia das empresas, do modo de organização do trabalho, do sector de actividade económica, da categoria profissional, da visão sobre os factores de competitividade, das culturas empresariais prevalecentes, havendo, em consequência, uma diversificada tipologia de saberes essenciais que correspondem a realidades e valores diferentes.

     Na terceira e última parte procurar-se-á identificar o quadro utópico de saberes ideais e essenciais num desejável paradigma antropocêntrico, fundado na adaptabilidade, na solidariedade, na complementaridade, na partilha e na inclusão, e em que a empresa não é apenas um instrumento de produção do lucro, mas também lugar de socialização e de realização pessoal.

1. Como se depreende do tema desta terceira conferência e do preâmbulo que a apresenta, há três momentos que estruturam esta minha visão da problemática dos saberes essenciais valorizados pelos empresários. O primeiro diz os contextos em que são gerados os pedidos e em que se tece a valorização de capacidades e competências; o segundo diz os diversos "saberes essenciais" e procura compreender e, se possível, explicar a diversidade de tipologias e a hierarquia de saberes; o terceiro procura identificar o quadro utópico de saberes ideais e essenciais num desejável paradigma antropocêntrico.

2. Como se referiu, a visão da essencialidade dos saberes e o texto que a materializa resulta das características e dos diálogos com os contextos. A família, o sistema escolar, o sistema social e o sistema económico desempenham papéis relevantes na construção do intertexto que existe no título desta conferência. Nesta conformidade, os "saberes essenciais" têm uma clara dimensão histórica e social, ou, para sermos mais precisos, são uma construção de determinados estratos da sociedade (isto é, dos actores que detêm o maior poder e influência na determinação da agenda educativa e formativa).

3. Como sabemos, vivemos hoje uma crise do modelo tradicional de família:
a monoparentalidade, a inserção e a realização da mulher nos contextos de trabalho, a escassez do tempo de relação, a presença extensiva e intensiva da TV são factores que configuram um novo modo de "ser família" e que tornam mais difícil e complexa a socialização primária das crianças, adolescentes e jovens. De facto, a família tem cada vez mais dificuldade em assegurar a transmissão eficaz de valores e normas culturais de conduta e de coesão social, por razões intrínsecas e extrínsecas. A redução da carga afectiva na transmissão de conhecimentos e valores e a perda de identificação com o mundo apresentado pelos adultos configuram um grave "défice de socialização" (cf. Tedesco: 1996) das crianças e jovens, com a consequente perda de referências, relativismo de valores, ameaça à coesão e solidariedade sociais.
Não obstante esta dificuldade, prolonga-se o período de dependência familiar por efeito da crise de emprego e do prolongamento da escolarização, o que vem tornar mais viva a complexidade deste paradoxo. É este o quadro mediatizado do "estar sozinho em casa" e de uma "vida sem tecto, entre ruínas".

4. Dada esta relativa falência da socialização primária, pede-se à escola que assuma os poderes, os afectos e as funções maternais e parentais, e que produza a interiorização das normas básicas do viver em sociedade, a aceitação dos dispositivos de legitimação e a adopção dos valores essenciais à vida social, para além das funções de instrução, estimulação e socialização secundária.
A esta sobrecarga de funções, a escola de massas – isto é: a escola para todos – tem evidentes dificuldades em responder, por uma diversidade de razões. Por um lado, está ainda organizada segundo o paradigma de um mundo industrial, social e familiar, em grande parte inexistente; e, por outro, tem dificuldade em conciliar harmoniosamente duas das funções maiores que a definem: a função educativa, promotora das capacidades de cada um, e a função de certificação, seriação e selecção.

5. Dadas as dificuldades da família e da escola, a ordem social ressente-se do "défice de socialização" e é atravessada por novos processos de estratificação e exclusão, sendo ensombrada pela sensação de "perda de continuidade histórica" (Tedesco: ib.), perda de referências, perda de laços e perda de identidade. O poeta Mário de Sá-Carneiro, no início do século, como que enuncia o sentido de perda e este drama em gente, no seu famoso poema Dispersão:

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto
E hoje quando me sinto
É com saudades de mim.

6. Por sua vez, a ordem económica é marcada pelos processos de globalização de mercados, capitais e tecnologias, que retiram a liberdade de afirmação a projectos pessoais e nacionais (o que leva alguns autores falarem de "globalitarismo"), pelas acrescidas dinâmicas de competitividade, pela deslocalização dos processos de produção, pela flexibilização tendencialmente externa que gera a precarização de vínculos e a exclusão das pessoas, pela imaterialização progressiva do trabalho e pelos efeitos paradoxais dos processos de desqualificação e qualificação dos trabalhadores.
Esta é uma ordem que parece ser sobredeterminada pela competição, pela ambição do lucro, num quadro de um certo darwinismo social em que só os mais fortes (isto é, os mais competitivos) podem sobreviver.

6. Esta é também uma ordem heterogénea marcada pela coexistência de diversos modelos de produção, distribuição e consumo. Não obstante a evolução para um modelo de produção flexível, que parece determinado por preocupações de sobrevivência económica, caracterizado pela produção de objectos e serviços de alta qualidade, existência de grau elevado de inovação, individualização e variedade de produtos, existência de pequenas unidades de produção, reduzida hierarquia e fraca divisão de trabalho, qualificação e polivalência do pessoal
(cf. Kovacs: 1992; 1994), e que apela para um modelo pós-taylorista da organização e da divisão do trabalho, coexistem na ordem económica global, e na portuguesa em particular, vários tipos de organização de trabalho, uns mais retrógrados e outros mais inovadores e com consciência social(1).

 
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