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Senhores(as) professores(as), educadores(as), administradores(as)
e técnicos(as) da educação

Senhores(as) convidados(as)
Caros(as) amigos(as)

Já em 1995, quando iniciámos este fórum de reflexão aprofundada sobre as questões da educação, falávamos dos tempos de mudança que vivemos como tempos ao mesmo tempo intranquilos e apaixonantes.

     O futuro já não vai ser o que era para ser, o que os nossos cálculos mais ou menos lineares projectavam e a incerteza envolve os nossos passos que, por isso mesmo, se tornam mais e mais imprevisíveis.

     A reflexão que aqui queremos empreender insere-se no nosso propósito inicial: proporcionar a emergência de uma reflexão prospectiva sobre o futuro da educação e a educação do futuro. Por mais dúvidas que haja acerca do que é e pode vir a ser a "sociedade da informação", é já bastante certo e visível o enorme impacte das novas tecnologias de informação no dia-a-dia dos cidadãos e das organizações. Na verdade, um dos traços de descontinuidade mais vincada que caracteriza os dias de hoje é o que vulgarmente chamamos sociedade da informação. E de que falamos quando falamos da sociedade da informação? Certamente que nos estamos a referir a uma enorme variedade de problemas. Falamos das imensas capacidades das telecomunicações derivadas da aplicação de novas tecnologias, que reduzem o planeta a um pequeno lugar, pleno de acontecimentos, dobrado sob o peso de informações ininterruptas. Falamos da maravilha que é dispormos de enormes quantidades de informação em casa, comodamente sentados. Mas também falamos da robotização da indústria, da automatização dos escritórios, da edição electrónica, dos recursos de ensino à distância e do software educativo multimédia, das compras e dos negócios realizados por meios electrónicos, dos novos meios de tratamento da imagem, das bases de dados e do teletrabalho, da videoconferência como modo virtual de comunicação em tempo real de som e imagem, das redes de comunicação através dos continentes e provavelmente de muitas outras realidades. Falamos também do excesso de informação, da dificuldade em a compreender e integrar e da rapidez com que a esquecemos.

     As crianças que hoje chegam à escola básica, que cresceram neste caldo informacional, não pensam do mesmo modo nem sabem o mesmo que as crianças de há vinte anos atrás. As crianças (sem esquecermos que é sempre uma parte das
crianças) já aprenderam muitas coisas pela TV ou pelas redes de computadores, mas sobretudo pela televisão. E ao aprenderem, desenvolveram capacidades e modos de aprendizagem, porventura diferentes daqueles que eram típicos de uma sociedade pouco informada, em que a televisão não estava tão massificada nem era o veículo de comunicação da imensidade e da qualidade de informação que é hoje.

     Aprende-se muito fora da escola. O que se aprendia na escola é, em termos gerais, o que se continua a aprender, e o modo de o fazermos é semelhante. Não haverá "rotas de colisão" entre estas diferentes aprendizagens e estes diferentes modos de ensinar e de aprender? Como lida a escola com as aprendizagens ditas "informais"? Ignora-as? Inveja-as? Integra-as?

     As situações serão as mais diversas, o que não é nada dramático. É preciso pensar este novo contexto. Para isso aqui estamos. Estamos contentes por terem vindo. Supostamente informados em excesso – o que não é verdade –, nós e os nossos alunos, imersos numa enorme voragem de acontecimentos, sensações, emoções, saboreamos um travo amargo, que vamos silenciando dentro de nós, e que reside na grande dificuldade em entendermos o mundo actual. "Não sabemos o que se passa e é precisamente isso que se passa." Mas estamos aqui porque estamos inquietos. Queremos ter consciência do que vivemos, queremos construir uma visão do mundo, para que não seja só o medo a comandar os nossos actos. Não o formulamos deste modo, mas desejamos alcançar uma visão política sobre a sociedade da informação e sobre a globalização, porque só esse esforço contínuo de procurar o bem-estar do ser humano na polis nos satisfaz. E este é o combate civilizacional em que, em cada momento da história, cada geração é chamada a participar.

     Nós não cruzamos os braços e por isso estamos aqui.

     Uma vez mais fomos buscar reputados pensadores para dialogarem connosco, para abrir novos horizontes, para rasgar carreiros onde parece não haver caminhos, para dar nomes ao desconhecido, para nos ajudar a percorrer novos lugares para onde é preciso partir, sem demora.

     Reúne-nos o gosto de estarmos uns com os outros, mas sobretudo congrega-nos a inquietação, a interrogação; e elas são as mães dos movimentos culturais que é preciso empreender, mormente na educação escolar. Começa a ser um lugar-comum referir a quase-falência do modelo moderno de educação escolar. Mas quantos ousam passar do lado dos problemas para o lado das soluções? Bem poucos, como se vê.

     O Livro Verde para a Sociedade da Informação em Portugal refere a dado passo:
"A vida nas sociedades de hoje exige de todos e de cada um uma capacidade de captar, transmitir e processar dados, disseminados num espaço cada vez mais global e mais facilmente acessível, transformando-os em informação e em saberes pertinentes, capazes de tornar inteligíveis os diversos cenários e trajectórias de evolução possível nos percursos pessoais e colectivos. A sociedade da informação exige novos conhecimentos e novas práticas, obriga a um esforço de aprendizagem permanente." (1997: 58)

     A questão central que este curso enuncia é esta: e a educação escolar, que é que tem a ver com isto? E os professores, comunicadores quotidianos de informação e potenciadores do desenvolvimento humano global dos alunos – desenvolvimento emocional, artístico, relacional, estético, moral, físico e intelectual –, que é que têm a ver com isto? Será que, um dia, quando houver um computador multimédia em cada escola, estará resolvida a questão? Talvez os professores do 1o. ciclo ou de matemática, português, física ou oficinas continuem a ensinar como ensinavam e os alunos não continuem a aprender como aprendiam. E isto apesar dos computadores.

     Temos de ir mais fundo e mais longe, trabalhando sobre o médio e o longo prazo e não apenas sobre o curto prazo. O currículo escolar tem de ser profundamente revisto, as políticas públicas de educação devem fazer tudo para evitar o surgimento de novas desigualdades no seio da sociedade da informação, as instituições escolares precisam de ser incentivadas a construir ambientes humanos de ensino e de aprendizagem "que lhes permitam inovar estruturalmente, além de se poderem equipar tecnologicamente".

     A Comissão Organizadora felicita cada um dos presentes e a sua decisão de investimento no pensamento prospectivo sobre a educação escolar e extra-escolar.

     Que o debate seja fecundo! A situação da educação escolar em Portugal bem o reclama. Perante a imensidade de problemas que a envolve, não têm faltado os cínicos encartados, destruindo e arrasando todo o esforço de mudança. Além destes, proliferam os desesperançados, os que já baixaram os braços. O impasse é evidente, todos o constatam. Resta-nos o debate sério e persistente, o trabalho quotidiano por mais e melhor educação, em cada um dos nossos locais, envolvendo o mais possível as organizações da sociedade civil. Resta-nos também rasgar novos caminhos, abrir horizontes humildes, criar novas situações, porventura pouco mediatizadas mas portadoras de mais liberdade pessoal e mais bem-estar.

     Afinal, para que existe o sistema escolar senão para uma quotidiana festa de diversidade, parque de liberdade e de realização pessoal, para lá de todo o tipo de subordinações e funcionalismos, seja à economia seja ao sucesso escolar a qualquer preço? Bom trabalho e bom encontro!

Joaquim Azevedo (Comissão Organizadora)
Porto, 3 de Julho de 1997

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