3. EUROPA: UMA CRISE ESTRUTURAL

Roberto Carneiro

    Num mosaico político-económico e cultural tão diferenciado a humanidade sente-se enleada num complexo processo de transição para o qual se encontrava de certa forma impreparada. O nosso mundo ocidental, particularmente o continente europeu, vê-se repentinamente mergulhado numa difícil conjuntura onde se misturam sentimentos de ingovernabilidade institucional e a dificuldade de adaptação criativa a um tempo onde a Europa já não lidera a marcha da história nem lhe cabe o protagonismo determinante no palco das grandes decisões mundiais. De certo modo, o complexo de nações que se convencionou aglutinar sob a capa dos valores acidentais ou da matriz cultural europeia sofre profundas convulsões decorrentes das contradições do modelo de vida que irreflectidamente adoptou. Na perspectiva estrita da envolvente económica e do emprego que nos cabe especialmente analisar não é fácil identificar os elementos evolutivos estruturais que podem caracterizar a presente transição de século e de milénio. Entre os principais componentes de uma volátil contemporaneidade podem seriar-se:

a) A globalização da economia sob a influência dos grandes espaços económicos, dos mercados internacionais, da mobilidade dos factores e da aproximação criada pelas novas tecnologias da comunicação e da informação.

b) Os limites da economia de mercado como sistema de interpretação total da sociedade e do homem, assim como a sua notória falência na compatibilização entre crescimento e solidariedade.

c) A intensa terciarização do tecido produtivo que passa de uma economia de bens a uma economia de serviços (servucção).

d) A escassez de postos de trabalho como fenómeno persistente e autónomo, indiferente mesmo aos ciclos económicos conjunturais de contracção ou expansão.

e) A rápida mudança da natureza e do conteúdo das estruturas ocupacionais com predomínio das categorias de forte valor acrescentado e fazendo apelo a cada vez mais exigentes habilitações em detrimento da mão-de-obra indiferenciada.

f) A elevação acentuada das taxas de actividade feminina que vai de par com a queda da fecundidade e da natalidade.

g) A diminuição da poupança – privada e pública – sob o peso galopante do consumismo, acarretando uma rarefacção da capacidade crítica de investimento das economias.

h) O colapso dos valores comportamentais das lideranças, expressos pelos agentes económicos e políticos que se mostram preocupadamente vulneráveis à corrupção, à batota e à venalidade, perante a "ambiguidade" tolerante das democracias representativas em choque visível com a crescente intolerância das "democracias de opinião".

i) O contraste entre os valores económicos paradigmáticos sobre que assentam os ordenamentos asiático e ocidental.

    Os Quadros II a V  exemplificam categoricamente a incidência desses fenómenos no delicado universo do emprego com particular enfoque sobre uma realidade europeia apanhada em processo global de metamorfose.
    Assim, se nos ativermos ao espaço económico e cultural que nos é próximo – a Europa – citaremos três das principais condicionantes económicas que integram a partilha de um sentimento crísico alargado e que acarretam consequências profundas para os sistemas educativos.

a) O paradoxo de uma abundância de trabalho (melhor saúde. esperança de vida alargada. desejo de participação) confrontada com a escassez de emprego. São 820 milhões de desempregados no mundo inteiro a que se teriam de acrescer cerca de 700 outros milhões a roçar a extrema pobreza e que são desempregados ausentes de registo oficial. O peso dos números e a dimensão do problema fere nevralgicamente o âmago dos países desenvolvidos: 36 milhões de desempregados no conjunto OCDE e 18 milhões na UE, sem que se vislumbre remédio estrutural para reverter uma situação estrutural de afastamento dos mecanismos produtivos. Na cultura ocidental, o fenómeno vem agravado pela circunstância de o acesso ao emprego remunerado se confundir desde sempre com a socialização efectiva do indivíduo e com a aquisição do estatuto de cidadania plena. Veja-se o impasse das reuniões do G-7 e o insucesso das cimeiras da UE, como aquela que recentemente ocorreu em Cannes, que se revelam impotentes para aprovar medidas consequentes de reanimação do mercado de emprego A conquista de altos índices de competitividade e de crescimento da produtividade fazem-se contra o emprego o que leva a que cerca de 50% dos europeus em condições efectivas de trabalhar não o possam fazer. O dualismo emergente começa a ser o que distingue famílias "ricas em emprego" e famílias "pobres em emprego", numa lógica cruel onde o desemprego de longa duração é sinónimo de desencorajamento, desânimo e precária sobrevivência.

b) O alastramento da exclusão e das bolsas de marginalidade. Sociedades aparentemente mais ricas tornaram-se menos justas revelando-se incapazes de conter a polarização induzida pelo mercado neo-liberal e o acentuado dualismo social. A extrema pobreza, designadamente a que se acolhe sob o lumpen urbano, ultrapassa o "nexus" económico que é encarado como uma implacável máquina, desmunida de alma e de humanidade A coexistência difícil e contraditória de pronunciamentos programáticos – Livro Branco para o crescimento, competitividade e emprego e Livro Verde para a política social europeia – é indiciadora da ausência de uma estratégia integrada de desenvolvimento sustentável que só se poderá fundamentar na prioridade ao factor humano. A nova "parábola" económica denuncia o círculo virtuoso da economia que redunda num círculo vicioso da sociedade cuja ratio intrínseca reendereça ao sistema produtivo a factura social do desemprego que ele provoca em nome do supremo valor da eficiência – Quadro VI (pág. 57).

c) A lentidão na adaptação das instituições europeias aos sectores de ponta da economia e da sociedade. Sindicatos, patronato, organismos oficiais, escolas, centros de regulação, monopólios estatais, sistemas jurídicos e de feitura de legislação, instituições de ciência e de cultura, administrações centrais e locais, vêm revelando uma notória inércia de inovação perante o ritmo a que noutras latitudes e longitudes progridem as telecomunicações, a sociedade da informação e do conhecimento, os universos multimedia, o software de gestão de organizações complexas, a telemática ou os sistemas audiovisuais, apenas para citar algumas fronteiras mais dinâmicas das economias modernas. Nunca como nos nossos dias o peso imobilista das instituições ou de uma mentalidade "entorpecida" foram tão inibidoras da relação europeia com o resto do mundo e lançaram sinais tão alarmantes de fragilidade.

 

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