| 2. UMA ECONOMIA EM FIM DE CICLO Roberto Carneiro No final do presente século, o panorama económico internacional encontra--se profundamente modificado. A derrocada do bloco político sustentado na filosofia da economia de planificação central e na doutrina comunista deflagrou um jogo de forças insuspeitadas que levou à diferenciação pronunciada das economias de mercado e ao rápido reordenamento internacional em função de grandes blocos económicos regionais. Uma geometria estática, e aparentemente previsível, deu origem a geometrias variáveis e multiformes, com evoluções surpreendentes para uma cultura geo-estratégica que se tinha habituado a subsumir a variável tempo nas variáveis espaço. Em síntese, o futuro deixou de ser uma projecção mais ou menos linear ou balística do passado; as trajectórias prospectivas das economias bem como das sociedades deixaram de ser determinadas pela mera fixação/compreensão das condições iniciais dos sistemas o tempo autonomizou-se como variável heterogénea e recurso estratégico numa civilização acometida da ideologia da urgência. Enquanto os países asiáticos e do Pacífico tigres e dragões entravam num ciclo expansionista sem precedentes e até interpelantes da sabedoria convencional contida nos manuais de ciência económica e do desenvolvimento, o continente africano, no outro extremo, afundava-se na estagnação ou mesmo na mais confrangedora regressão económica e social, abandonado por uma Europa ensimesmada sobre os seus momentosos problemas. Esta, por seu turno, vê-se invadida por um acentuado europessimismo: a ocidente, a construção da União Europeia marca passo no meio da mais profunda crise económica dos últimos 40 anos, mas também pela sensação de vazio de valores de referência, pela inércia das suas instituições consuetudinárias e perante uma gravíssima perda de credibilidade do papel do Estado; a leste, as novas democracias fragilizadas e a vulnerabilidade de um sistema destituído de instrumentos credíveis de regulação política e de sustentação equilibrada da economia de mercado tornam-no teatro apetecível para a concentração do ódio intercultural e da violência interétnica bem como para a proliferação de um capitalismo selvagem, sem rei nem roque, e precariamente defendido perante a penetração do sub-mundo da criminalidade internacional, da violência organizada e da anomia social. No continente americano, a norte, acelera-se um processo de integração económica ao abrigo de um NAFTA dominado pelo poderio económico e tecnológico dos EUA cuja liderança internacional depende vitalmente do alargamento dos mercados contíguos sob sua influência. Em contrapartida, a região latino-americana e das Caraíbas vive vergada sob o peso da pobreza e da desigualdade, cuja implosão em Chiapas veio fazer pairar sobre o conjunto desses países, e sobre os correspondentes esforços de estabilização económico--financeira no traumático pós-ajustamento estrutural, o fantasma do síndroma mexicano e as contingências decorrentes das brechas abertas por regimes políticos autoritários de pendor presidencialista. A esta complexa paisagem geo-estratégica veio sobrepor-se recentemente a maior crise económica internacional das últimas décadas cujas feridas continuam por sarar nos nossos dias e que veio minar a precária confiança dos mercados mundiais. Os processos produtivos e a correlativa divisão internacional dos factores de produção viram-se aceleradamente transformados sob o estímulo das novas tecnologias, de uma diferente hierarquia de valores (pós-materiais, ambientais, desvalorização do imperativo produtivista, liberdades fundamentais) e do incremento da competição internacional. A humanidade encontra-se repentinamente despida de anteriores certezas, ancoradas na suposta infalibilidade das ciências económicas, e mergulha num ambiente de incertezas e perplexidades: crise de emprego, erosão inflacionista, descontrole dos défices públicos, alastramento das desigualdades, propagação de comportamentos económicos destituídos de conteúdo ético...
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