| 2. A EDUCAÇÃO BÁSICA PARA O
SÉCULO XXI Fay Chung
Para poder enfrentar com êxito os desafios do
século XXI, a educação básica não só terá que ser tornada universal como terá
ainda que ser uma educação de elevada qualidade, semelhante à que é oferecida nos
países industrializados. Simultaneamente será necessário que essa educação básica
esteja enraizada em tradições culturais tão diferentes como são as do Leste e as do
Sul. A combinação da natureza universal da educação com currículos, processos e
culturas educacionais verdadeiramente relevantes para cada realidade local e nacional
constitui um desafio para os educacionalistas, tanto de hoje como do século XXI.
A educação básica é definida de um modo geral como educação de
infância, educação primária e educação básica de adultos. Nos países mais
desenvolvidos a educação básica inclui ainda a educação secundária de primeira etapa
ou educação média. Esta comunicação irá centrar-se principalmente na educação
primária.
A Educação de Infância
O trabalho dos psicólogos educacionais demonstrou a
importância que as experiências da primeira infância têm no desenvolvimento cognitivo
e afectivo posterior. Por isso, dá-se hoje grande ênfase ao desenvolvimento e educação
de cada criança antes da sua entrada na escola primária. A aprendizagem de competências
e valores de socialização começa numa idade muito precoce através da interacção com
os pais e com outras crianças.
Contudo, a oferta de educação de infância, enquanto serviço social
básico, só existe nos países industrializados. Na maior parte dos países em
desenvolvimento a educação de infância só se encontra disponível para a elite
privilegiada.
Mais recentemente houve uma mudança de orientação por parte das
agências internacionais de desenvolvimento, como é o caso da UNICEF, deslocando a
ênfase que era dada ao estabelecimento de instituições dedicadas à primeira infância
para a oferta de uma educação parental para todos. Esta mudança conduzirá muito
provavelmente a uma distribuição mais equitativa de recursos, favorecendo as famílias
mais pobres que não dispõem de meios para enviar as suas crianças a centros de
educação de infância. A educação parental, tendo como alvo tanto o pai como a mãe,
conduzirá a uma maior participação e responsabilização das comunidades ao nível da
educação de infância.
A Educação Primária
É generalizadamente aceite que a educação
primária deverá incluir competências de comunicação e numéricas, bem como
competências relacionadas com a compreensão do meio ambiente e da sociedade pelo
educando. A educação está também associada ao desenvolvimento de valores de coesão
social e solidariedade. A educação deverá desenvolver ao máximo o potencial de cada
educando, incluindo a sua capacidade de autoconhecimento e de realização pessoal. Mais
ainda, a melhor educação será aquela que permita desenvolver a criatividade e a
capacidade de inovação. As crianças e adultos iliterados deverão em primeiro lugar
aprender na sua língua materna. Mas, numa fase posterior, deverão avançar para uma
língua usada mais generalizadamente, de preferência uma língua internacional. Na aldeia
global, o conhecimento de uma língua internacional pode ser crucial tanto para a
mobilidade ascendente como para capacitar as pessoas para lidarem com as oportunidades e
desafios que a vida lhes venha a oferecer. Isto implicará uma reorientação no sentido
de uma educação multilingue ao nível da educação primária e básica, com as
correspondentes implicações metodológicas.
A aprendizagem da língua e da comunicação numa situação
multilingue e multicultural envolverá necessariamente o desenvolvimento de uma maior
compreensão e tolerância para com os valores e perspectivas dos outros. O
desenvolvimento do espírito de tolerância relativamente a valores e pontos de vista que
são diferentes dos nossos é hoje em dia essencial tanto para a sobrevivência da
humanidade como para o seu progresso. A possibilidade de o mundo poder regressar a um
estádio mais primitivo, no qual toda a gente tenha as mesmas convicções religiosas,
ideológicas e culturais, parece estar ultrapassada. Essa possibilidade foi substituída
por um pluralismo que a educação básica do futuro terá que ajudar a assegurar.
A matemática, sendo uma das linguagens internacionalmente
transferíveis, bem como uma das chaves para a ciência e tecnologias modernas, é uma
matéria escolar essencial. Por isso a qualidade do ensino e da aprendizagem da
matemática tem que ser melhorada.
Desenvolver os conhecimentos e as competências suficientes para
permitirem que os educandos não só compreendam mas também saibam lidar com as suas
respectivas sociedades, se necessário modificando-as para melhor, sem recurso à
violência, exige competências pedagógicas do mais alto nível. A educação para a paz
desenvolvida pela UNESCO e pela UNICEF tem um papel a desempenhar no reforço do potencial
existente para a resolução pacífica do conflito e da mudança.
Outra área importante de valores a serem desenvolvidos é a da
educação das populações. O controlo demográfico tem a ver não só com o conhecimento
da tecnologia do planeamento familiar, mas também com os valores relativos à dimensão
da família e às oportunidades individuais oferecidas a cada criança no seio da
família, com famílias mais modernas a revelarem mais expectativas no sentido de
oferecerem maiores oportunidades educativas e económicas aos seus filhos.
O esforço no sentido da concretização de alguns valores aceites
universalmente, como, por exemplo, os expressos na Carta dos Direitos Humanos e, mais
recentemente, na Convenção sobre os Direitos da Criança, poderia tornar a educação
básica potencialmente num instrumento para o desenvolvimento de alguns valores
globalmente aceites e partilhados. A educação pode ainda ser vista como uma linguagem e
cultura comuns, estabelecendo a ponte entre muitas e diferentes sociedades.
Compreender uma sociedade exige um sólido conhecimento de história:
sem um bom conhecimento do passado, é provável que a sociedade repita os seus erros. A
História e as humanidades deveriam, por isso, ser um aspecto importante da educação
básica.
A ciência e a tecnologia desempenham um papel importante na
resolução dos problemas da vida real, tais como os relativos à protecção e
melhoramento do meio ambiente, ao planeamento familiar e à criação de emprego. Por isso
a educação básica para o século XXI terá que colocar uma forte ênfase na ciência e
na tecnologia e a ciência e a tecnologia terão que ser ensinadas utilizando-se uma
metodologia experimental. Contudo, isto constitui um enorme desafio para os países do
Terceiro Mundo, nos quais é difícil encontrarem-se professores com os níveis de
formação científica e tecnológica necessários. Para além disso, o equipamento e os
materiais requeridos pela ciência e pela tecnologia, de um modo geral, são caros. A
ciência e a tecnologia fornecem elas próprias algumas respostas a este problema,
nomeadamente a educação através da televisão, do vídeo e do computador.
Mas muitos dos países em desenvolvimento não têm meios para
adquirirem essas tecnologias. Contudo, a rádio e o material impresso continuam a
constituir meios de acesso imediato para os países mais pobres, e a baixa rápida dos
custos dos meios tecnológicos poderá tornar os novos métodos de comunicação
acessíveis a curto prazo.
A ciência e a tecnologia estão relacionados com o mundo do trabalho.
Embora seja generalizadamente aceite que a educação primária não é o período
adequado para o desenvolvimento de competências relacionadas directamente com o
desempenho de uma profissão, o currículo da escola primária deve, contudo, dar conta do
valor e características do mundo do trabalho. A educação primária estabelece a base da
educação e formação posteriores e, como tal, precisa de desenvolver alguns dos
conceitos e competências que mais tarde serão relevantes para o desempenho profissional.
A expressão das ideias e sentimentos próprios e o desenvolvimento do
sentido estético são também partes integrantes da educação básica, e de qualquer
sistema educativo. A actividade criativa, incluindo a escrita criativa, a arte e a
música, são por isso partes integrantes da educação primária.
O desenvolvimento da coordenação e das destrezas manuais são uma
parte importante da educação primária, em especial quando factores ambientais pobres
podem afectar o posterior desenvolvimento destas áreas.
Uma das mudanças que tem vindo a registar-se nestes últimos anos é a
tendência para deixar de se considerarem os governos como os principais ou exclusivos
responsáveis pela oferta de educação, caminhando-se no sentido de uma abordagem mais
diversificada da oferta escolar que considera os pais e as comunidades locais como
parceiros da maior importância na provisão escolar. Contudo, os governos continuam ainda
a desempenhar o papel mais importante na provisão da escolaridade primária, uma vez que
a retirada dos governos deste sector de importância crucial teria como consequência não
só uma maior falta de equidade como ainda a possibilidade da falta de coordenação e
sistematização da educação.
É altamente provável que a participação crescente dos pais e das
comunidades na educação dos seus filhos continue a ser uma realidade no século XXI, na
medida em que os pais tenham eles próprios mais educação e em que uma abordagem
pluralista da educação ofereça mais opções aos pais.
Para além disso, o sector privado entrou também na arena da oferta
escolar, competindo com outras fontes de oferta mais tradicionais, como o Estado e as
organizações religiosas. A comercialização da educação alargou as possibilidades de
escolha dos pais. Contudo, é necessária alguma forma de controlo da qualidade do sector
privado.
Esta crescente diversificação de modalidades, contudo, é acompanhada
por uma tendência de sentido inverso, ou seja, por uma crescente uniformização entre os
países, tanto no que se refere aos conteúdos nucleares como às metodologias. A
participação à escala mundial de especialistas de várias áreas disciplinares em
actividades de desenvolvimento curricular conduziu à partilha de resultados dos trabalhos
de investigação e desenvolvimento nas várias matérias. Em consequência disso, é
possível encontrarem-se cursos de matemática e ciência de nível primário muito
semelhantes em países e culturas muito diferentes. Simultaneamente, a necessidade de se
adequar a educação às condições, interesses e preocupações locais continua a ser da
maior importância. Esta tensão entre o universal e a realidade próxima é geralmente
resolvida pela combinação entre um curriculum nuclear definido a nível nacional e um
curriculum opcional definido localmente. A separação entre o universal e o
nacional/local tornar-se-á ainda mais marcante no século XXI, com as culturas locais e
alternativas a tornarem-se mais fortes, como reacção contra a crescente uniformização
provocada pela ubiquidade da ciência e da tecnologia e pelo predomínio dos meios de
comunicação de massa, em particular pela televisão via satélite controlada
digitalmente, que tem a possibilidade de chegar a todos os cantos da Terra em alguns
segundos.
O Papel dos Meios de Comunicação de Massa na Educação
Os sistemas de comunicação de massas tendem a desempenhar um papel
cada vez mais importante na educação. A utilização da rádio permitiu desde cedo o
desenvolvimento em larga escala de programas de educação à distância. A televisão e o
vídeo têm vindo também a desempenhar um papel cada vez mais importante na educação. O
advento do computador irá levar ainda mais longe a possibilidade de ensinar e aprender à
distância. As capacidades dos publicitários não foram ainda aproveitadas a favor da
educação, embora já sejam usadas correntemente para fazerem passar as mensagens
políticas.
A tecnologia das comunicações terá um papel da maior importância na
criação de uma aldeia global cada vez mais pequena, na qual os acontecimentos
verificados em qualquer parte do planeta serão conhecidos à escala mundial num curto
espaço de tempo. Mais ainda, as decisões tomadas num determinado ponto do mundo irão
com toda a probabilidade influenciar as vidas das pessoas noutras partes do mundo. Já é
assim que acontece hoje, mas este fenómeno irá sofrer um desenvolvimento acelerado no
próximo século. A necessidade de democratização do processo de tomada de decisões
através dos vários continentes dependerá cada vez mais da eficácia da tecnologia das
comunicações na transformação das mensagens.
Contudo, o advento da tecnologia das comunicações de massa constitui
uma área tanto de perspectivas entusiasmantes como de perigos. Os perigos da publicidade,
em simultâneo com as suas vantagens, são já uma evidência. A publicidade oferece aos
consumidores uma mais ampla possibilidade de escolha entre os produtos existentes. Mas,
por outro lado, pode criar necessidades e promover valores nocivos à sociedade e
inatingíveis por essa mesma sociedade.
Um exemplo disso parece ser o efeito dos meios de comunicação
acidentais nos países comunistas, pois a propaganda comunista, ao que parece, terá
deixado de ser credível face às transmissões da televisão via satélite que mostravam
os elevados padrões de vida e de liberdade do Ocidente. As sociedades tradicionais em
processo de mudança acelerada terão que dispor dos conhecimentos e competências
adequados para poderem dominar com êxito sistemas de comunicações sofisticados, para
que não se tornem nas vítimas controladas por forças sobre as quais não têm qualquer
poder. É um facto histórico bem conhecido que o regime nazi deveu parte do seu sucesso
às campanhas de propaganda de massas, incluindo o recurso à rádio e a filmes.
Num cenário deste tipo, a educação básica tem que familiarizar o
educando não só com a moderna tecnologia mas também com os conhecimentos e
competências necessários para a compreender, criticar e dominar. Isto é pedir muito à
educação de massas e implica, tanto relativamente ao processo de ensino como ao de
aprendizagem, um grau de exigência muito mais elevado do que o que tem sido feito até
aqui.
Professores para o Século XXI
Embora alguns possam pensar o contrário, é muito provável que as
características e o papel dos professores se venham a alargar e a aprofundar no século
XXI, na medida em que o professor será o mediador entre dois mundos, o mundo do passado,
do presente e do conhecido e o mundo do futuro e do desconhecido. As sociedades
tradicionais não serão capazes de se manter isoladas da modernização, apesar do poder
de atracção dos fundamentalismos de diverso tipo que prometem o regresso a um mundo do
passado, mais puro e mais compreensível. O forte conflito existente actualmente entre
várias formas de fundamentalismo, desde o fundamentalismo cristão nas suas várias
manifestações, nomeadamente nos Estados Unidos, ao fundamentalismo islâmico e ao hindu
no Leste e à limpeza étnica em algumas partes da Europa e da África, reflecte, nas suas
variadas formas, o desejo de um retorno à simplicidade mais compreensível e mais
controlável do passado. O papel do professor como mediador entre o tradicionalismo e a
modernidade não é um papel novo, mas as complexidades de uma sociedade moderna
pluralista colocarão muito maiores exigências ao professor do futuro, tanto ao nível
pessoal como ao da sua formação. A situação actual em que os professores são
recrutados entre os estudantes menos capazes, sendo frequentemente mais mal pagos do que
os funcionários públicos e os técnicos, terá que ser substituída por um sistema de
recrutamento segundo o qual só as pessoas que apresentem maior qualidade, tanto ao nível
intelectual como de formação pessoal geral, sejam admitidos para a docência. A
perspectiva de Matthew Arnold relativamente aos professores, considerando-os como as mais
cultas das pessoas, tornar-se-á ainda mais relevante no século XXI do que no século XX,
no qual predomina ainda uma visão tecnicista dos professores, considerados como meros
transmissores do conhecimento produzido noutros sítios.
O conhecimento terá que estar intimamente ligado à vida da comunidade
de tal modo que não só possa beneficiar essa mesma comunidade como ainda possa ser
controlado por ela, no quadro do seu sistema de valores próprio. Para desempenhar
eficazmente esse papel de mediador do conhecimento, o professor precisará de se tornar
parte integrante da comunidade.
A remuneração dos professores teria que ser ajustada de modo a
corresponder à necessidade de longos períodos de educação e formação, bem como à
dedicação exigida por essa vida numa comunidade.
As exigências feitas aos professores dificilmente serão satisfeitas,
se estes forem formados isoladamente de outros profissionais e técnicos. Um sistema
verdadeiramente novo que permita aos professores serem formados, pelo menos em parte do
tempo, em conjunto com formandos de outras áreas, é da maior importância a fim de se
acabar com o isolamento da formação que tem vindo a caracterizar em larga medida a
formação de professores. Simultaneamente os professores terão necessidade de passar
alguns períodos da sua vida profissional em outras áreas ocupacionais significativas,
como as áreas industrial, comercial e de serviços, pois será difícil preparar os
educandos para o mundo do trabalho se o professor, ou a professora, não estiverem eles
próprios familiarizados com ele.
A Gestão das Escolas no Século XXI
Muito frequentemente os directores das escolas são professores que,
tendo dado boas provas ao nível da sala de aula, são promovidos nesse cargo. Contudo, do
mesmo modo que a gestão no comércio e na indústria evoluiu e deu origem a uma ciência
e a uma técnica complexas, também a gestão de uma escola deverá ser encarada como uma
tarefa complexa, associando, por um lado, o papel de líder comunitário e, por outro, o
de líder intelectual e profissional. Por outras palavras, enquanto que a
compartimentalização do conhecimento levou a uma especialização crescente dos
profissionais e à desintegração desse mesmo conhecimento em disciplinas especializadas,
o século XXI trará consigo a necessidade de um quadro de referência integrador e
compreensivo. O director de escola terá que dispor das competências e da experiência
adequadas para lidar com as necessidades da comunidade, bem como com a vastidão e
variedade do novo conhecimento e da nova tecnologia que caracterizará o século XXI.
A Educação Básica de Adultos
Face a um século XXI cuja característica
determinante será, muito provavelmente, a constante mudança e a inovação, haverá a
necessidade de uma educação permanente ao longo da vida de forma que os adultos possam
não só compreender a mudança mas também aprender a lidar com ela tranquila e
eficazmente. A educação/formação contínua permitirá aos trabalhadores enfrentarem
com sucesso as exigências das novas tecnologias, segundo um modelo semelhante ao que os
colégios comunitários da América do Norte já estão a pôr em prática actualmente.
Um aspecto importante da mudança será o que se refere à
democratização crescente do processo de tomada de decisão e, com ela, à necessidade de
um maior acesso do cidadão comum ao conhecimento e à investigação.
Hoje em dia os resultados da investigação continuam a ser uma
realidade reservada ao especialista e não são certamente acessíveis às pessoas
habilitadas apenas com a educação básica. A generalização do conhecimento tornará a
educação básica de adultos, bem como a utilização dos meios de comunicação de
massa, ainda mais importantes no século XXI.
A Educação Secundária
As sociedades que registaram as maiores transformações económicas,
passando de sistemas tradicionais para economias industrializadas modernas, tinham em
geral um mínimo de 20% da sua população habilitada com educação de nível
secundário(6). Uma vez que a educação secundária é considerada na maior parte dos
países industrializados como parte integrante da educação básica, é também
conveniente que os países do Terceiro Mundo aspirem a que pelo menos 20% da
suapopulação tenham acesso à educação secundária. Isto
constitui um difícil desafio se atendermos ao facto de muitos dos países em
desenvolvimento ainda não terem sequer conseguido tornar universal a educação
primária. Contudo, parece que o processo de desenvolvimento requer não só cidadãos
habilitados com a educação básica mas também, e em número substancial, com educação
secundária e pós-secundária. O nível médio, ou seja, o das pessoas abrangidas pela
educação secundária, é de importância tão crucial como o da educação primária
para todos. Na verdade, se a educação primária pode ter um impacto maior em questões
como os cuidados de saúde primários, o planeamento familiar e o melhoramento do
ambiente, a educação secundária desempenha um papel da maior importância no
desenvolvimento do espírito de iniciativa e de inovação necessário ao arranque do
crescimento económico.
Dada a situação económica dos países do Terceiro Mundo, é pouco
provável que uma grande parte deles consiga disponibilizar os meios necessários para a
educação secundária mesmo tratando-se apenas de 20% da sua população, se se
mantiverem os sistemas actuais. A utilização da metodologia de educação à distância,
a custos favoráveis se atendermos à sua eficiência, e de equipamento de custos baixos
pode, nestas circunstâncias, tornar a educação secundária acessível. Existem já
exemplos de sucesso em muitos países que recorreram a essa metodologia, como, por
exemplo, o programa de ensino secundário ZIMSCI, no Zimbabwe, que deu a possibilidade aos
alunos do secundário, tanto os de escolas rurais em locais remotos como os de escolas
urbanas sobrelotadas, de realizarem experiências científicas sem laboratórios, nem
professores de ciências qualificados.
3. CONCLUSÃO
O mundo do século XXI está ainda a construir-se. A manutenção dos
sistemas educativos nos diversos países nos moldes actuais terá como consequência a
manutenção do status quo, nomeadamente a diferenciação económica crescente
entre os países e o recrudescer da violência e dos conflitos. Contudo, não temos que
ver o futuro como imutável. As decisões tomadas hoje irão influenciar os acontecimentos
das próximas duas ou três décadas. Os sistemas educativos em particular têm tendência
a ser muito estáveis e os seus efeitos a prolongarem-se no tempo. As mudanças que forem
efectuadas no conteúdo e nos processos da educação podem influenciar o tipo de futuro
que nós e os nossos filhos iremos enfrentar no século XXI. É por isso importante que
tenhamos uma visão acerca do tipo de sociedade e de sistema social que gostaríamos de
criar para o século XXI. É importante que o crescimento económico esteja relacionado
com a satisfação das necessidades humanas de um modo mais equitativo do que acontece
actualmente; a extrema pobreza de alguns países do Terceiro Mundo, que não conseguiram
evoluir, mantendo sistemas económicos e sociais tradicionais, constitui uma ameaça à
prosperidade e estabilidade dos estados ricos e altamente desenvolvidos. A educação pode
fazer a diferença no futuro, uma vez que o futuro será, sem sombra de dúvida, uma
sociedade baseada no conhecimento.
(6) Luis Crouch, Policy, Dialogue and Reform in the
Education Sector: Necessary Steps and Conditions, Academy of Educational
Development, Washington, l993.
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